Pergunta bíblica sobre o Livro de Jó


P: Quando foi escrito este livro?

Os estudiosos não têm a certeza, por isso vamos reunir algumas pistas.

Fora do contexto: No livro de Jó, a riqueza era medida em gado, não em dinheiro ou ouro. As pessoas não possuíam moedas no Médio Oriente até cerca de 500 a.C., tendo estas surgido principalmente através dos persas, que as aprenderam com os lídios. Ezequiel 14:14 menciona Jó, e Isaías 19:5 é quase idêntico a Jó 14:11; se Isaías tiver aprendido essa ideia com Jó, então, obviamente, o livro de Jó teve de ter sido escrito antes (ou muito antes) de Isaías e Ezequiel.

Antes disto: uma vez que Jó era um homem de Deus, seria de questionar por que razão não há sequer uma ligeira menção à Lei de Moisés em parte alguma — a menos que isto tenha sido escrito antes de os israelitas entrarem na Terra Prometida e de os não-judeus poderem ter conhecimento da Lei de Moisés.

A seguir: No livro de Jó, Bildad era um suita e Elifaz era um temânita. Suá era filho de Abraão e de Quetura, conforme Génesis 25:2. Temã era neto de Esaú. (Génesis 36:11, 15, 42; 1 Crónicas 1:36, 45, 53). Assim, foi escrito muito depois da época de Jacob e Esaú. O estilo de Jó é o «hebraico clássico», o que indicaria uma data posterior a 1500 a.C. No entanto, Jó 1-2; 12:9; 38; 40 e 42 referem-se a Deus como Yahweh, pelo que é provável que tenha sido escrito depois de Deus ter revelado esse nome a Moisés, ou seja, após 1447 a.C.

Conclusão: Não sabemos ao certo, mas é muito provável que Jó tenha vivido algures entre 1800 e 1447 a.C., ou seja, quando os israelitas se encontravam no Egito ou vagueavam pelo deserto.


P: No livro de Jó, qual é o esboço deste livro?

R: Aqui está um esboço simples que mostra a estrutura. Os capítulos são indicados entre parênteses.

Introdução (1-2)

Jó (3)

Três ciclos:

Elifaz (4-5) Elifaz (15) Elifaz (22)

Jó (6-7) Jó (16-17) Jó (23-24)

Bildad (8) Bildad (18) Bildad (25)

Jó (9-10) Jó (19) Jó (26-27:12)

Zofar (11) Zofar (20) ? (27:13-23)

Jó (12-14) Jó (21) Jó (28-31)

Eliú (32-37)

O Senhor (38-41)

Jó (42)

Há quem considere que é Zofar quem fala em Jó 27:13-23, enquanto outros pensam que foi Jó.


P: O livro de Jó terá sido inspirado em antigas lendas sumérias e babilónicas?

R: Não há provas disso, uma vez que a semelhança não significa necessariamente que um tenha sido inspirado no outro. Pelo contrário, seria surpreendente se não existisse outra literatura que abordasse esta questão. Existem duas obras mesopotâmicas que tratam do problema do sofrimento.

«Louvarei o Senhor da Sabedoria», uma obra acádia, é por vezes designada como o «Jó babilónico».

O «Diálogo sobre a Miséria Humana» (também chamado de «Teodiceia Babilónica») questiona por que razão existe sofrimento em geral, enquanto Jó questiona por que razão está a sofrer. O «Diálogo sobre a Miséria Humana» responde afirmando que foram os deuses que tornaram os homens maus. O livro de Jó responde a isto afirmando que não se deve ao pecado de Jó. Pelo contrário, Deus é tão superior a nós que, por vezes, tem razões que não conseguimos compreender para permitir que os Seus servos obedientes sofram. No caso específico de Jó, a fidelidade por ele demonstrada trouxe glória a Deus.

Nos tempos modernos, o livro «O Problema da Dor», de C. S. Lewis, é muito esclarecedor.


P: Jó foi uma pessoa real e histórica?

R: Certamente. O próprio Jó indica isso; Ezequiel 14:14,20 também menciona Jó como uma pessoa justa, juntamente com Daniel e Noé. Tiago 5:11 também refere Jó como uma pessoa. Não há provas que indiquem o contrário. O livro de Jó 1 apresenta Jó de forma tão natural como 1 Samuel apresenta Elcana e Lucas apresenta Zacarias.


P: Jó era judeu, israelita ou gentio?

R: Jó provavelmente nunca poderia ter sido judeu, porque o povo «judeu» era constituído pelos remanescentes dos israelitas, que regressaram à terra após o Exílio, e o livro de Jó foi muito provavelmente escrito antes dessa altura.

Há quem pense que Jó era israelita, porque o livro de Jó utiliza o nome divino um total de 23 vezes. No entanto, em todas as ocasiões, com exceção de duas, o nome divino é utilizado pelo narrador do livro e não por Jó nem por nenhum dos seus amigos.

Há quem considere que o livro de Jó possa estar entre os primeiros livros da Bíblia. Não sabemos quando o livro de Jó foi escrito, mas, uma vez que Jó 1:17 menciona os caldeus e os sumérios só foram assimilados pela Caldeia por volta de 1500 a.C., deve ter sido após essa data. (Os israelitas saíram do Egito por volta de 1447 a.C.)

Jó poderia muito bem ter sido um israelita, mas não há motivos para favorecer esta interpretação, e foram encontrados vários não-israelitas com o nome de Jó. O livro de Jó poderia certamente ter referido isso, mas nada diz sobre a origem étnica de Jó. Talvez a razão seja que a origem étnica de Jó não era importante.


P: No livro de Jó, quem mais se chamava Jó e Bildad?

R: W.F. Albright descobriu que o nome «Iyyob» já era utilizado antes mesmo da época de Moisés. Os textos de execração de Berlim mencionam um «Iyyob» como príncipe sírio nas proximidades de Damasco. «Ayyabum» surge nos textos de Mari. As cartas de Tell el-Amarna, datadas de 1400-1370 a.C., mencionam Ayab como um príncipe de Pella. W.F. Albright descobriu que o nome Bildad era uma forma abreviada de «Yabil-Dadum» no segundo milénio.


P: No livro de Jó, uma vez que as opiniões dos interlocutores divergiam, como é que todos eles poderiam ter sido inspirados?

R: Deus optou por nos mostrar com veracidade o que eles disseram, sem endossar as suas opiniões como verdade. De facto, no final do livro de Jó, Deus declarou que as opiniões dos três amigos estavam erradas.


P: No livro de Jó, uma vez que Deus nos ama, por que razão permite Deus tanto sofrimento no mundo?

R: Cinco pontos a considerar na resposta.

1. Desde a Queda, o mundo tem estado sob o domínio do maligno (1 João 5:19). Encontramo-nos em território ocupado pelo inimigo.

2. Este não é o melhor mundo possível; não devemos sentir-nos demasiado à vontade aqui. O melhor mundo possível é aquele em que as pessoas têm liberdade para amar a Deus, e onde todos amarão a Deus. O melhor mundo possível é o Céu, e este é o caminho para o melhor de todos os mundos possíveis.

3. Este não é um mundo justo, onde os bebés sofrem e algumas pessoas más vivem vidas longas e prósperas. A justiça virá, e o Dia do Juízo Final será quando Deus colocará tudo em ordem.

4. A perspetiva eterna de Deus difere, por vezes, da nossa. Vemos a morte como o fim e o sofrimento como algo extremamente longo. Deus vê mil dos nossos anos como apenas uma vigília na noite (Salmo 90:4). Talvez devêssemos ter uma visão a mais longo prazo, tal como Deus tem.

5. Podemos não compreender por que razão passamos pelo sofrimento que enfrentamos, mas Romanos 8:28 diz que Deus pode usar todas as coisas, e não apenas as coisas boas, para que contribuam para o bem daqueles que O amam. Podemos não compreender o nosso sofrimento, mas Deus compreende, porque o próprio Jesus veio, sofreu e foi morto injustamente, e Ele compreende a nossa dor.


P: No livro de Jó, por que razão acontecem coisas más a pessoas piedosas?

R: Por vezes, conseguimos perceber as razões pelas quais as calamidades acontecem aos cristãos. Paulo pregou pela primeira vez aos Gálatas devido a uma doença, conforme se refere em Gálatas 4:13. A Paulo foi dado uma espécie de espinho, conforme se refere em 2 Coríntios 12:7-10, para o impedir de se tornar presunçoso. Os cristãos que tomaram o cálice do Senhor de ânimo leve foram castigados com doença e morte, conforme 1 Coríntios 11:29-32. Cristãos como Paulo (2 Timóteo 3:10-12) e João (Apocalipse 1:9) sofreram perseguição por causa do Evangelho. Parte da provação de Jó consistiu em não saber o que se passava.

No entanto, na maioria das vezes, não conseguimos perceber as razões das provações que se abatem sobre os justos. Temos de nos contentar em esperar até ao Céu para conhecer as razões de muitas coisas. Podemos afirmar, de um modo geral, que as provações desenvolvem a perseverança (Tiago 1:2-4). Todas as coisas, mesmo as más, contribuem para o bem daqueles que O amam (Romanos 8:28).

O livro de Jó explora esta questão. Ignorando as muitas verdades subtis presentes em Jó, podemos afirmar:

1. Embora Satanás tenha instigado o sofrimento, Deus permitiu-o e utilizou-o para a Sua glória.

2. Depois de tudo isto ter terminado, um resultado secundário foi que Jó conheceu Deus de uma forma muito mais pessoal e íntima.

3. Durante toda a provação, Jó não fazia ideia do motivo pelo qual isto estava a acontecer. De certa forma, isto também fazia parte da provação.

4. Os três amigos de Jó tinham todas as respostas para ele; infelizmente, eram as respostas erradas.

5. A resposta dada a Jó não foi «Foi permitido a Satanás atormentar Jó para o pôr à prova». Em vez disso, a resposta foi: «Na Terra, muitas vezes Deus não nos revela as razões do sofrimento.»

Em resumo, Deus pode permitir o que quiser. Hoje há muitas coisas que não estão bem, e está a chegar um tempo, o Dia do Juízo Final, em que tudo será corrigido. Consulte a discussão sobre Gálatas 4:13 para obter mais informações sobre o sofrimento devido à doença.


P: Bart Ehrman escreve: «E assim que se inclui o Antigo Testamento na equação, as coisas ficam completamente confusas. … O livro de Amós insiste que o povo de Deus sofre porque Deus o está a castigar pelos seus pecados; o livro de Jó insiste que os inocentes podem sofrer; e o livro de Daniel indica que os inocentes, de facto, irão sofrer. Todos estes livros são diferentes, …» (Jesus, Interrupted, p. 12. Ver também Lost Christianities, p. 117-118)

R: Ehrman tem, aparentemente, uma verdadeira dificuldade em aceitar afirmações complementares. Se alguém como Daniel, em determinada ocasião, é perseguido por ter obedecido a Deus, Ehrman tem dificuldade em aceitar que, noutras ocasiões, as pessoas sofram porque Deus as está a castigar. Amós nunca afirmou que as pessoas só sofrem por causa dos seus pecados; Amós estava a referir-se a uma situação específica da sua época. Jó mostra, de facto, que as pessoas por vezes sofrem por razões alheias aos seus próprios pecados ou aos das pessoas que as rodeiam, e Daniel mostra que o povo de Deus por vezes sofre às mãos dos incrédulos precisamente por estar a seguir a Deus. Ambos dizem coisas diferentes, mas não são incompatíveis. Os diferentes lados de uma escultura têm aspetos distintos, mas trata-se da mesma escultura. Da mesma forma, a verdade apresenta diferentes perspetivas consoante o seu foco, mas essas perspetivas são complementares, não incompatíveis.


P: No livro de Jó, por que razão Deus permitiu que Jó sofresse?

R: Cinco pontos a considerar na resposta.

Uma vez que todas as pessoas têm uma natureza pecaminosa (Romanos 3:23), vivemos num mundo caído (Romanos 8:20-22), sob o controlo do maligno (1 João 5:19), pelo que todas as pessoas estão sujeitas ao sofrimento.

Jó não estava a sofrer por causa de qualquer pecado específico que tivesse cometido, e o sofrimento de uma pessoa não se deve necessariamente ao facto de essa pessoa ser mais pecadora do que as outras. Jesus ensinou o mesmo em Lucas 13:4. De facto, Jó examinou-se a si próprio e não conseguiu encontrar qualquer pecado que justificasse que ele recebesse este tratamento e outros não, em Jó 6:24, 29, 30. Por vezes, o sofrimento é uma disciplina de Deus para nos persuadir a arrependermo-nos dos nossos pecados, mas não foi esse o caso aqui.

Em geral, embora possamos ler as causas e o desfecho no livro de Jó, o próprio Jó não o podia fazer. Podemos aprender com isto que, por vezes, os crentes obedientes passarão por sofrimento sem conhecer a razão.

Especificamente no caso de Jó, o seu sofrimento glorificou a Deus ao demonstrar a Sua fidelidade, mesmo depois de ele ter perdido a esperança. Mesmo um crente fraco e mortal como Jó conseguiu resistir ao pior que Satanás lhe podia infligir. Deus tem sempre as Suas razões, e todas elas, em última análise, remetem para a disciplina ou para a Sua glorificação. Muitas vezes não conhecemos as razões naquele momento, mas saberemos depois de morrermos.

No final, Deus terá um mundo onde não haverá sofrimento nem tentação, mas todos nesse lugar escolherão livremente amá-Lo. Estes são os novos céus e a nova terra. Aguardamos ansiosamente esse momento, em que «“Ele enxugará toda a lágrima dos seus olhos”, e não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor, pois as coisas anteriores já passaram.» (Apocalipse 21:4) Vem, Senhor Jesus!


P: Em Jó 1:1, Jó 1:8 e Jó 2:3, de que forma Jó era justo, uma vez que Romanos 3:10 afirma que ninguém é justo?

R: Jó era um homem piedoso. Estes versículos não afirmam que Jó fosse perfeito e isento de pecado, mas que ele obedecia diligentemente a Deus e dizia que se arrependeria de qualquer erro que cometesse.


P: Em Jó 1:1, resumidamente, onde ficava Uz?

R: Uz era filho de Aram, de acordo com Génesis 10:23 e 1 Crónicas 1:17. Os arameus concentravam-se na Síria, num distrito a que chamavam Ussai. Para complicar ainda mais as coisas, o nome árabe de Esaú é «is», e havia outro Uz, descendente de Edom, mencionado em 1 Crónicas 1:42. Jeremias 25:20 menciona Uz, e Edom habitava em Uz, conforme Lamentações 4:21.

Da mesma forma, questiona-se se as pessoas noutras partes do mundo ficam confusas com a existência de um estado de Washington e de Washington, D.C. Para os americanos, isto não é confuso, e a existência de duas terras de Uz provavelmente também não era confusa para os escritores da Bíblia.


P: Em Jó 1:2, qual é o significado de sete filhos e três filhas?

R: Existem três possibilidades:

1. Podem ser simplesmente os números reais que por acaso existiam.

2. Estes números representam perfeição e completude noutras passagens, e podem simplesmente refletir isso aqui.

3. Podem ser ambas as coisas. Deus fez com que estes números fossem incluídos para representar a perfeição e a plenitude, e Deus agiu na história de modo a que estes fossem também os números reais.


P: Em Jó 1:5, os judeus deveriam ter feito sacrifícios por outros, tal como Jó fez?

R: Não, porque o Antigo Testamento nunca ordenou isso. Além disso, a Bíblia mostra que uma pessoa (caída) não pode fazer expiação por outra pessoa. A título de nota adicional, nada na Bíblia diz que Jó fosse israelita.


P: Em Jó 1:5, o facto de Jó oferecer sacrifícios pelos seus filhos corrobora o ensinamento católico romano sobre as indulgências, como afirmou um escritor católico (Ludwig Ott)?

R: Não. A doutrina católica das indulgências sustenta que uma pessoa pode realizar uma ação, como pagar dinheiro à Igreja, para eliminar a pena no purgatório, quer pelos seus próprios pecados, quer pelos pecados de outro católico que já tenha falecido.

Não há qualquer menção a um «tesouro de méritos» em que um santo falecido possa ajudar alguém na Terra.

Ainda vivos: os filhos de Jó ainda estavam vivos.

Não ordenado na Bíblia: Embora as intenções de Jó fossem boas, não há nada na Bíblia que diga que era isto que Deus queria que fizéssemos, nem nos tempos do Antigo Testamento nem do Novo. Nada indica que Deus tenha aceitado o sacrifício de Jó por mais ninguém além do próprio Jó.

Não há qualquer menção ao purgatório no livro de Jó, nem em qualquer outra parte da Bíblia, aliás.

A intenção desta passagem é mostrar quão justo Jó era, e não introduzir uma nova doutrina (que não foi seguida por mais ninguém na Bíblia).


P: Em Jó 1:6, quem eram os filhos de Deus a que aqui se refere?

R: Eram anjos, tanto anjos bons como demónios caídos.


P: Em Jó 1:6, por que razão foi permitido a Satanás apresentar-se perante Deus, enquanto nós não podemos apresentar-nos diretamente perante Ele?

R: Embora a Bíblia não o diga, há algumas observações que podemos fazer a este respeito.

a) Deus está presente em todo o lado (Salmo 139:7-12; Jeremias 23:24).

b) Deus tem também uma presença especial e localizada na sala do trono do Céu, como mostra Apocalipse 4.

c) Satanás também se apresentou perante Deus em Zacarias 3:1, a fim de tentar acusar o sumo sacerdote. A «Enciclopédia das Dificuldades Bíblicas», pp. 238-239, afirma que isto sugere que Satanás tem acesso ocasional a, pelo menos, uma parte do céu para apresentar acusações.

d) Jó 1:6 não especifica em que sentido Satanás se apresentou perante Deus, mas Jó 1:6 indica que Satanás se encontrava num grupo ao qual não pertencia.


P: Em Jó 1:6, terá Jó sido utilizado como um «peão» no «jogo de xadrez» de Deus com o diabo?

R: Jó não era um peão, nem era um caso único. Jó glorificou Deus com a sua vida; agora iria glorificá-Lo com a sua vida perante uma forte oposição. Nós também existimos para servir a Deus e glorificá-Lo, mesmo com a oposição que enfrentamos. Podemos sofrer nesta vida, mas os sofrimentos que suportamos são tão insignificantes quando comparados com as riquezas do Céu (1 Pedro 1:6-7; 1 Coríntios 2:9-10), das quais desfrutaremos com Deus para sempre.


P: Em Jó 1:9-12, qual foi, especificamente, a acusação de Satanás contra Jó?

R: Satanás não podia negar que Jó era um homem justo e não abordou esse assunto. Em vez disso, Satanás questionou as motivações de Jó, alegando que este servia a Deus apenas para seu próprio benefício.


P: Em Jó 1:11, a palavra hebraica aqui deve ser traduzida como «abençoar» ou «amaldiçoar»?

R: A palavra aqui pode significar «abençoar», no sentido de uma bênção de despedida. Em inglês, dizemos «good-bye», que é uma contração de «God be with you» (Deus esteja convosco). Tanto aqui como no Salmo 10:3, a palavra tem um sentido irónico. Assim, Jó 1:11 pode ser traduzido como: «… e ele dir-lhe-á adeus na sua cara.» Da mesma forma, o Salmo 10:3 pode ser traduzido como: «… diga adeus e renuncie ao Senhor.»


P: Em Jó 1:13-19; 2:7, por que razão Satanás odiava tanto Jó?

R: Satanás detestava o facto de Jó glorificar a Deus. Para além disso, Satanás não se importava minimamente com Jó, a não ser para desacreditar Deus e o testemunho de um dos Seus servos.


P: Em Jó 1:14-20, como se sentiria um cristão ao estar a servir a Deus de forma abnegada (Jó 1:5) e, mesmo assim, ver a calamidade abater-se sobre si?

R: Alguns cristãos reagiriam como Jó em Jó 1:20-22: ficariam tristes, mas usariam essa tristeza para adorar a Deus. Outros, que talvez estivessem a servir a Deus apenas pelas bênçãos presentes nesta vida, poderiam afastar-se de Deus. Esse é exatamente o desafio de Satanás. Satanás estava a acusar Jó perante Deus de seguir o segundo caminho, e este teste iria demonstrar que tipo de crente Jó era. Em tudo isto, Jó não pecou nos seus pensamentos nem na sua atitude — pelo menos, ainda não.

Se uma calamidade se abateu sobre a sua vida enquanto servia fielmente a Deus, talvez esteja a passar por um teste semelhante, embora talvez não tão severo. Vai utilizar a injustiça e a tristeza para adorar a Deus na mesma, de uma forma ainda mais intensa do que antes, ou vai desesperar-se?


P: Em Jó 1:15, quem eram os sabeus?

R: Podem ter sido o mesmo povo mencionado em Joel 3:8, que vivia no atual Iémen, no sudoeste da Península Arábica. No entanto, é mais provável que se tratasse de um grupo de pessoas a quem os assírios chamavam de «Saba», que viviam no norte da Arábia. É claro que os sabeus do norte da Arábia também podem estar relacionados com os sabeus do sudoeste da Arábia.


P: Em Jó 1:16, o que era o fogo de Deus?

R: Um relâmpago. Provavelmente tratava-se de um termo coloquial para se referir a um fogo que não era originário desta terra. Por outras palavras, o relâmpago que caiu do céu.


P: Jó 1:20-21 ensina a reencarnação?

R: Não. Por vezes, os adeptos da Nova Era interpretam versículos bíblicos que ensinam a vida após a morte ou a ressurreição e, uma vez que o versículo ensina a vida após a morte, concluem que se deve tratar de uma vida após a morte por reencarnação. No entanto, este versículo nem sequer ensina a vida após a morte. Em vez disso, Jó limita-se a observar que veio a este mundo sem nada (nu) e que também partirá deste mundo sem nada. Na verdade, Jó refere-se à morte como algo de onde «nunca mais se volta» em Jó 10:21.


P: Em Jó 1:22, o que significa exatamente a palavra hebraica «tiplah», traduzida como «injustiça»?

R: A palavra está relacionada com «insípido». Uma palavra semelhante é traduzida por «sem valor» em Lamentações 2:14. Jó, nesta altura, acreditava que Deus tinha um propósito superior para o que estava a acontecer; por isso, não acusou Deus de fazer algo sem valor ou sem propósito.


P: Em Jó 1:22, de que forma é que algumas pessoas acusam Deus de injustiça?

R: Alguns afirmam explicitamente que «Deus é injusto» por várias razões. Algumas pessoas religiosas dizem que Deus é justo, mas que a Sua justiça é insondável. Há alguma verdade nisso, uma vez que a justiça e o amor de Deus estão além da nossa compreensão plena. No entanto, afirmar que, uma vez que Deus é infinito, não podemos compreender o que é a justiça de Deus e que não vale a pena tentar, é como dizer que, uma vez que o amor de Deus é infinito, não podemos compreender o que é o amor de Deus e que não vale a pena tentar.

Algumas pessoas pensam que Deus é injusto porque vêem que a punição para os ímpios não é imediata. Outras pensam que Deus é injusto pela razão oposta: os piedosos nem sempre recebem coisas boas. Outras ainda consideram Deus injusto porque os justos nem sempre recebem coisas melhores do que os ímpios, pelo menos nesta vida. Podemos compreender o que Deus revelou sobre a justiça, mas temos de confiar em Deus pela fé de que a justiça virá.


P: Em Jó 2:3, de que forma Deus agiu contra Jó?

R: Deus agiu de forma significativa ao retirar parcialmente a Sua proteção de Jó.


P: Em Jó 2:3 e Jó 1:8, como é que uma pessoa na Terra pode ser «irrepreensível e íntegra», apesar de termos pecado?

R: Deus não se referia aqui à perfeição sem pecado. Mas Jó seguia fielmente a Deus e, embora ninguém esteja isento de pecado, a irrepreensibilidade de Jó era altamente agradável a Deus. Embora os seres humanos tenham uma natureza pecaminosa (com exceção de Jesus), um ser humano, nesta vida, pode estar isento de pecado crónico e persistente e arrepender-se do pecado deliberado que comete. Não se trata de uma pessoa poder alcançar um estado nesta terra em que já não peque (seja intencionalmente ou não), mas sim de, quando se aperceber disso, se arrepender rapidamente.


P: Em Jó 2:4, por que razão Satanás disse: «pele por pele»?

R: Satanás estava a afirmar que qualquer pessoa faria qualquer coisa para preservar a sua pele. Satanás estava a insinuar que Jó poderia aceitar a morte dos seus servos e filhos, mas não aceitaria que a sua própria saúde fosse afetada. No entanto, Jó provou que Satanás estava errado. Como nota à parte, um dermatologista (médico especialista em pele) citou isto uma vez na sua literatura para afirmar que a Bíblia ensina a importância da pele. O problema é que, quando citou este versículo (na versão KJV), não citou as três primeiras palavras e, quando não se cita o início de um versículo ou de uma frase, deve-se colocar reticências (…), o que ele não fez. As palavras em falta eram «E Satanás respondeu».


P: Em Jó 2:7, que tipo de doença é que Jó tinha, exatamente?

R: As Escrituras não especificam, mas poderia ter sido uma de várias coisas. Poderia ter sido lepra; no entanto, eles conheciam a lepra e chamavam-na assim (2 Crónicas 26:16-20), e aqui não foi referida como lepra. A palavra hebraica para «furúnculos» aqui também foi utilizada para designar uma das pragas do Egito em Êxodo 9:8-11 e Deuteronómio 28:27, bem como a doença de Ezequias em 2 Reis 20:7. Poderia ter sido elefantíase, em que grandes tumores benignos podem cobrir todo o corpo. Faz com que a pessoa tenha um aspeto repugnante, levando os outros a querer evitá-la, e não há cura.

Também poderia ter sido outra doença de pele, como o pênfigo foliáceo. Esta apresenta feridas (Jó 2:7), comichão (Jó 2:8), alterações na pele do rosto (Jó 2:7, 12); perda de apetite (Jó 3:24), perda de forças (Jó 6:11); vermes nos furúnculos (Jó 7:5), feridas que escorrem (Jó 7:5), dificuldade em respirar (Jó 9:18), olheiras (Jó 16:16); mau hálito (Jó 19:17), perda de peso (Jó 19:20; 33:21), pele enegrecida e descamada (Jó 30:30) e febre (Jó 30:30).

Era também fácil contrair uma infeção por estafilococos, que é difícil de tratar sem antibióticos e acaba por ser fatal.

Apesar de tudo, Jó poderia raspar-se com cacos de cerâmica para aliviar a comichão e tentar remover o pus. Poder-se-ia querer sentar-se sobre cinzas, não apenas para fins de luto, mas também porque as cinzas recém-queimadas seriam estéreis e reduziriam a probabilidade de infeção. Embora os seus companheiros, mais adiante no livro, possam ter-se deixado levar por ideias erradas, ainda assim é preciso reconhecer-lhes o mérito de estarem dispostos a permanecer ao lado do seu amigo de aspeto tão terrível. Começaram a chorar quando viram o quão mal Jó estava, mas mesmo assim vieram e sentaram-se com ele.


P: Em Jó 2:8, por que razão alguém com feridas por toda a pele se sentaria nas cinzas?

R: Na verdade, esta prática faz todo o sentido. As cinzas recentes (mas frias) seriam provavelmente o local mais estéril onde uma pessoa se poderia sentar.


P: Em Jó 2:9-10, por que razão Satanás não matou a esposa de Jó, bem como os seus filhos?

R: Talvez Satanás tenha observado a atitude dela e percebido que ela poderia ser um instrumento útil, na qualidade de pessoa próxima de Jó, capaz de o tentar. Satanás utilizou-a como uma sexta tentação, a do desespero. João Crisóstomo referiu este facto.


P: Em Jó 2:9, por que razão a esposa de Jó diria: «Amaldiçoa a Deus e morre»?

R: Tanto Jó como a sua esposa estariam perplexos com o que lhes estava a acontecer a ele, aos seus bens e aos seus filhos. Como Jó percebeu, esta foi uma afirmação perversa proferida por uma mulher em desespero. Pode ser interpretada como uma sugestão para cometer suicídio. O hebraico possui várias palavras para designar tolos, e esta é a palavra utilizada para um tolo obstinado, tal como no Salmo 14:1. Ela estava a pedir a Jó que fizesse exatamente o que Satanás disse a Deus que Jó faria. Talvez ela amasse Jó e preferisse vê-lo morrer a vê-lo passar por tudo isto. Lembre-se de que, embora Deus estivesse a testar Jó, a esposa de Jó também tinha dez filhos enterrados. De certa forma, isto foi também um teste para a esposa de Jó, e ela falhou completamente. A morte dos seus filhos não significava que a esposa de Jó fosse pior do que outras esposas, mas sim que podem ocorrer consequências desiguais para as pessoas nesta vida.


P: Em Jó 2:10, o que significa aqui a palavra «mal»?

R: Isto não significa mal moral, mas sim calamidade física. Pode traduzir-se por «aflição» ou «adversidade».


P: Em Jó 2:11, quem eram os temânitas, os suítas e os maamatitas/naamatitas?

R: Os dois primeiros povos eram conhecidos dos hebreus, embora haja alguma ambiguidade ou incerteza quanto à sua localização atual.

Teman era um oásis bem conhecido no norte da Arábia. Este era um dos oásis mais bem irrigados da Península Arábica. Teman era também o nome de uma cidade de Edom, conhecida pelos seus sábios, conforme Jeremias 49:7,20. 1 Crónicas 1:36 afirma que Teman era descendente de Elifaz de Edom, pelo que o Elifaz de Jó poderá ter recebido o nome em homenagem ao seu antepassado.

Shuah era um irmão de Midiã que vivia no Oriente, de acordo com Génesis 25:2, 6 e 1 Crónicas 1:32. Além disso, os registos assírios mencionam um povo chamado «Suhu».

Os maamatitas/naamaitas são desconhecidos, para além do que se encontra em Jó 2:11 e Jó 20:1; 42:9.

Jó era um nome bastante comum, com base nas Cartas de Tell el-Amarna (1400-1370 a.C.) e nos textos egípcios de execração, bem como em registos de Mari e Alalakh.


P: Em Jó 2:13, em que circunstâncias é melhor não dizer nada ao consolar alguém?

R: Pode ter passado algum tempo até que os amigos de Jó tomassem conhecimento disto e conseguissem reunir-se todos para virem em grupo. Mas, quando chegaram, ficaram tão comovidos com o sofrimento de Jó que, inicialmente, não sabiam o que dizer. No entanto, em geral, não deve haver a sensação de que é necessário dizer algo de forma impetuosa. Por vezes, o melhor consolo pode ser uma presença silenciosa. As suas palavras devem ser úteis e bem escolhidas. Não há pressa em dizer qualquer coisa, incluindo coisas inúteis que não se possa retirar.


P: Em Jó 3:1-7, Jó pecou ao amaldiçoar o dia em que nasceu?

R: Jó não transgrediu o que Deus revelou na lei. Jó não amaldiçoou Deus, a si próprio nem a mais ninguém, apenas o dia em que nasceu. Jeremias também amaldiçoou o dia em que nasceu, em Jeremias 20:14-18. No entanto, esta atitude não foi benéfica para eles, nem para nós, porque Deus afirma que fomos criados de forma admirável e maravilhosa, no Salmo 139:14. Muitos consideram este o ponto inicial em que Jó começou a pecar. Jó está a dar um conselho realmente mau, dizendo que o melhor para um crente seria nunca ter nascido e, em segundo lugar, que morresse imediatamente. Nesta altura, Jó esqueceu-se de que estaremos com Deus depois de morrermos, embora se lembre disso mais tarde.

Os crentes de hoje, tal como Jó, podem passar por períodos de dúvida e questionar a bondade de Deus. Mas devemos continuar a ser fiéis, tal como Jó o foi.


P: Em Jó 3, quais são algumas das características básicas do discurso de Jó?

R: Trata-se de um monólogo, de certa forma dirigido a Deus, e ele quase parece não dar por si de que os seus amigos estão ali. Muitas vezes, os discursos têm introduções corteses e respeitosas, mas este discurso não tem nada disso.

Por vezes, as pessoas que sofrem de depressão podem sentir que o seu mundo desabou à sua volta, tornando-se muito pequeno, e não se apercebem facilmente das outras pessoas à sua volta que lhes querem ajudar.


P: Em Jó 3:16-22, o que pensava Jó sobre a vida após a morte?

R: Esta passagem mostra que Jó tinha uma perspetiva eterna e acreditava na vida após a morte. Os mortos têm descanso (Jó 3:13; 17-19), na medida em que os seus corpos já não se afanam. Por mais repousantes que Jó e os justos possam estar, os ímpios continuam a sofrer após a morte.

O versículo que ilustra mais claramente a visão de Jó é Jó 19:26-27. É claro que conceitos como o Milénio, a segunda vinda do Messias, a era da Igreja, etc., não tinham sido revelados aos crentes na época de Jó.

Os primeiros cristãos interpretaram Jó como se referindo à ressurreição. Clemente de Roma escreve: «E, mais uma vez, Jó diz: “Tu ressuscitarás esta minha carne, que sofreu todas estas coisas.”» 1 Clemente, cap. 26, p. 12


P: Em Jó 3:16-22, o que é que isto nos ensina sobre a vida após a morte?

R: Em primeiro lugar, esta passagem limita-se a relatar o que Jó pensava, sem endossar tudo o que Jó disse como verdade. Tudo o que Jó disse aqui era verdade, exceto que:

a) o versículo 22 refere-se apenas aos justos, enquanto os versículos 17-19 são verdadeiros para todos (na morte, ele é libertado do seu senhor, etc.), e

b) Ao contrário do que Jó se queixava, existe castigo para aqueles que rejeitam Deus.


P: Em Jó 3:1-26, quando uma pessoa passa da fé e da paciência para o desespero e a depressão, será que alguma vez consegue recuperar?

R: Sim, tal como Jó fez no final do livro. Embora, nesta altura, Satanás pareça estar prestes a vencer o seu desafio com Deus, Jó continua a aguentar-se, embora não sem pecar.


P: Em Jó 4:1-5:27, qual é a mentalidade básica de Elifaz?

R: Elifaz reconheceu que Jó tinha sido um homem justo que ajudou muitos. No entanto, levantava-se a questão de saber se Jó praticava o que pregava em Jó 4:4. O argumento de Elifaz tem origem em Jó 4:8: uma pessoa colhe o que semeia. Elifaz está a tentar ajudar Jó e a fortalecer o seu querido amigo. Parece ser muito importante para Elifaz, e para os outros, ajudar Jó a descobrir a razão justa para o seu sofrimento especial, porque, para Elifaz, o sofrimento de Jó provava que este devia ter feito algo de errado. Elifaz tinha a visão errada de que a justiça de Deus é sempre imediata. Se nada acontecesse, seja de bom ou de mau, a ninguém, isso seria simplesmente justiça adiada, mas há mais do que isso. Não só as pessoas ímpias muitas vezes não enfrentam imediatamente as consequências da sua maldade, como também: por que razão acontecem coisas más aos piedosos, quando os ímpios são mais merecedores? Assim, não só a justiça de Deus muitas vezes não é imediata, como muitas vezes as injustiças são imediatas.

Deus não só fará justiça no fim, como também reverterá todas as injustiças a que estamos sujeitos. No caso específico de Jó, este sofreu injustamente às mãos de Satanás. Não foi apenas o seu sofrimento, mas o seu sofrimento injusto, que glorificou a Deus.


P: Em Jó 4:1-5:27, Salmos 34:12-16, Marcos 4:24 e Gálatas 6:7, não é verdade que uma pessoa colhe sempre o que semeia?

R: Sim, estes versículos afirmam que colhe-se o que se semeia, mas nem sempre de forma imediata. Além disso, estes versículos não afirmam que tudo o que se colhe se deve exclusivamente ao que se semeia. O Salmo 73 apresenta um exemplo de pessoas más que se tornam ricas e prosperam.


P: Em Jó 4-5, como é que alguém hoje em dia pode ser como Elifaz, tendo uma teologia basicamente correta, mas sem compaixão?

R: Elifaz falou apenas a verdade, mas apenas parte da verdade. Embora pudesse ter parecido pouco compassivo para Jó, Elifaz estava a tentar dar esperança a Jó. Apesar de as coisas estarem más agora, em Jó 5:17-27, Elifaz afirma que Deus pode curar e restaurar no final.

P: Em Jó 4:7, uma vez que parte do argumento de Elifaz poderia ser designada como «causa e efeito», será verdade ou não que uma vida piedosa produz bons resultados e uma vida ímpia produz maus resultados?

R: Nesta vida, isso é verdade em geral. Mas há muitas exceções, em ambos os sentidos, e não é algo em que se deva confiar. Pelo contrário, Deus colocará tudo em ordem no final, após a nossa morte. Jesus disse em Lucas 13:1-5 que aqueles sobre quem caiu a torre de Siloé não eram necessariamente pecadores piores.


P: Em Jó 4:5-5:27, qual é a estrutura do argumento de Elifaz?

R: Trata-se de um quiasmo, que é comum na poesia hebraica.

— Introdução (4:2)

— — Exortação (4:3-6)

— — — O modo como Deus trata os homens (4:7-11)

— — — — A revelação da verdade (4:12-21)

— — — A forma como Deus lida com os homens (5:1-16)

— — Exortação (5:17-26)

— Observação final (5:27)


P: Em Jó 4-5, há momentos em que pode estar a tentar ajudar uma pessoa deprimida e, tal como os três amigos de Jó, acaba por estar a interpretar tudo de forma errada?

R: Eles vieram para encontrar respostas e dá-las a Jó; talvez Jó não estivesse à procura de respostas nessa altura. Esperemos que, quando tentar ajudar alguém, haja pelo menos alguma correspondência entre o que a pessoa deseja e o que ela percebe que o(a) senhor(a) está a oferecer. Por vezes, tudo o que a pessoa deseja, inicialmente, é uma presença amorosa ao seu lado.

Quando estiver a tentar ajudar uma pessoa com depressão, não faça as coisas apenas com base na forma como acha que ela as deveria receber. Seja receptivo e observe como ela as recebe efetivamente. Talvez limpar a casa por ela possa ser stressante; agora ela tem de se preocupar com o que o senhor deitou fora. Comprar-lhe roupa ou outra coisa significa que o senhor não aprova o que ela estava a usar? Talvez essas coisas sejam adequadas, mas certifique-se bem de que as suas demonstrações de amor são recebidas da forma que pretendia.


P: Em Jó 4:5-5:27, qual é o argumento de Elifaz neste contexto?

R: Compõe-se de duas partes.

Confie na sua própria justiça, Jó, uma vez que deu bons ensinamentos a muitos. Elifaz viu os ímpios serem castigados e os justos serem recompensados.

No entanto, ninguém é justo em comparação com Deus, pelo que ninguém pode questionar a injustiça ou culpar Deus com ressentimento. Eu apelaria a Deus, porque Ele resgata sempre os justos. Mesmo que tenha pecado, Deus irá discipliná-lo, mas continuará a resgatá-lo.

Estas duas partes parecem incongruentes. Uma interpretação é que Elifaz estava a apresentar argumentos sem se aperceber de que estes eram contraditórios. Mas talvez Elifaz estivesse deliberadamente a ser incongruente. Ele estava a falar com ironia quando disse a Jó para confiar na sua própria justiça, dada a situação em que Jó se encontrava. Se o senhor, Jó, não tem realmente posto em prática aquilo que tem vindo a pregar, então assuma a responsabilidade pelo que está a colher, fortaleça-se perante esta disciplina e mude daqui em diante. Elifaz está a dizer que Deus é bom, que Ele disciplina com justiça e que o senhor ainda pode ter felicidade depois de ter sido disciplinado (Hebreus 12:5-11).

Apesar de tudo, Elifaz estava errado em quatro aspetos:

a) A justiça de Deus muitas vezes não é imediata

b) A justiça pode ser imediata para alguns e não para outros

c) O facto de Deus ser tão santo não justifica de forma alguma o sofrimento de Jó e o facto de outros não sofrerem.

d) Mais importante ainda, o facto de Jó sofrer mais do que outras pessoas não se deveu ao pecado.

O discurso de Elifaz é, de certa forma, verdadeiro, exceto que a causa e o efeito da verdade estão totalmente invertidos.


P: Em Jó 4:6, o que aprendeu Jó sobre a esperança?

R: A aflição de Jó não foi um castigo pelo pecado, uma disciplina para que ele aprendesse o erro dos seus caminhos, nem um meio de purificar o seu caráter. Mas deixou Jó com uma relação mais próxima de Deus. Provérbios 3:26 diz que o Senhor será a nossa confiança.

Jó não está apenas a dizer que a sua vida está péssima neste momento. Pelo contrário, está a dizer que a soma de todas as coisas boas que alguma vez recebeu na vida não se compara a toda a angústia e sofrimento que tem suportado, apesar de isso só ter começado recentemente.

Por vezes, desesperamo-nos porque não temos esperança suficiente. Mas, na maioria das vezes, temos esperança a mais, mas nas coisas erradas. Temos esperança na nossa salvação porque Cristo morreu por nós, E temos esperança devido à nossa conta bancária, E temos esperança devido às nossas poupanças para a reforma, E temos esperança devido à nossa família, E à nossa saúde, E… Mas e se essas outras coisas nos fossem tiradas, tal como aconteceu a Jó? Continuaríamos a ter esperança suficiente?


P: Em Jó 4:12-21, o que pensa da opinião de que todos nós temos pecado, pelo que todo o sofrimento dos crentes pode ser explicado pelo facto de todos os crentes precisarem de alguma disciplina pelos seus pecados?

R: Essa é uma parte do argumento de Elifaz e, à primeira vista, parece lógica. No entanto, os capítulos 1 e 2 do livro de Jó mostram que essa não foi, de forma alguma, a razão do sofrimento de Jó naquela altura e, por extensão, de algum sofrimento dos crentes hoje em dia também.


P: Em Jó 4:12-21, será que Elifaz poderia estar certo ao afirmar que as suas palavras provinham de uma revelação divina?

R: Muitos têm questionado isso, porque a sua revelação apresenta um Deus indiferente em relação às pessoas. As suas palavras continham um erro teológico: ele não percebeu que nem todo o sofrimento provém diretamente do pecado daquele que sofre, tal como Jesus ensina em Lucas 13:1-5.

Ainda hoje, alguns crentes pensam ter recebido uma revelação divina e estão enganados.


P: Em Jó 4:20-21, que argumento válido é que Elifaz apresenta aqui?

R: Elifaz está a referir-se à fragilidade das nossas vidas e ao facto de algumas pessoas viverem toda a sua vida sem nunca encontrarem sabedoria. Embora as nossas vidas também sejam curtas e efémeras, não é esse o argumento que Elifaz está a apresentar aqui.


P: Deverá Jó 5:7 ser traduzido como «o homem nasce para a aflição» ou «o homem gera aflição»?

R: Com as consoantes, poderia ser de ambas as formas. Com as vogais adicionadas, o hebraico significa «o homem nasce para a aflição». No entanto, uma alteração na vogal torna a frase ativa em vez de passiva, e, nesse caso, seria «o homem gera/causa aflição».


P: Em Jó 5:13, por que razão Paulo citou Elifaz em 1 Coríntios 3:19, uma vez que Deus mais tarde repreendeu Elifaz?

R: Em Jó 42:7, Deus não disse que tudo o que Elifaz disse estava errado, apenas algumas coisas. Elifaz estava correto ao afirmar que Deus apanharia os sábios na sua astúcia, mas estava errado em todas as palavras em que pensava que Deus não permitiria que qualquer aflição se abatesse sobre os que não a mereciam nesta vida.


P: Em Jó 5:25-27, em que medida Elifaz se mostrou muito insensível nesta passagem?

R: Elifaz está a assegurar a Jó que, se ele for piedoso, a sua tenda estará segura; a casa de Jó acabara de ser destruída. Elifaz diz a Jó que, para um homem justo, os filhos serão muitos. Na verdade, Jó tinha muitos filhos, e todos eles foram mortos. Essas observações podem ter magoado profundamente Jó.


P: Em Jó 6:1-7:21, o que há de tão errado na resposta de Jó?

R: Embora possamos encontrar pequenas frases em que Jó não se expressou de forma muito construtiva, isso faz-nos perder de vista um ponto muito mais importante. Tudo o que Jó diz gira em torno dele próprio ou do seu sofrimento. Jó parece zangado tanto com Deus como com os seus conselheiros desprovidos de compaixão, e está empenhado em justificar o que sente. Elifaz deu alguns bons conselhos em Jó 5:8-17, basicamente para que Jó olhasse para cima, para Deus e para a Sua glória. No entanto, Jó ignora completamente esta parte da resposta de Elifaz, concentrando-se apenas em si próprio. Jó «era irrepreensível e íntegro» perante Deus, em Jó 1:1, mas porquê? Será que Jó era irrepreensível e íntegro para seu próprio benefício, para a sua prosperidade e para a sua família, ou será que a principal motivação de Jó era glorificar a Deus? A resposta de Jó demonstrou que, quando a sua prosperidade, a sua família e a sua saúde lhe foram tiradas, Jó continuou fiel a Deus. Mas será que Jó procurava realmente glorificar a Deus como seu objetivo principal? Parece que Jó não estava a pensar em glorificar a Deus em Jó 6; mas parece que, no final do livro, já o estava a fazer.


P: Em Jó 6:1-7:21, o que é compreensível na resposta de Jó?

R: As pessoas que passam por catástrofes costumam passar por várias fases. A primeira pode ser «negação e isolamento», seguida de «raiva», depois «negociação», depois «depressão» e, finalmente, «aceitação». Estas fases foram observadas em doentes terminais por Elisabeth Kübler-Ross. Colin Murray Parkes também estudou este tema e elaborou uma lista diferente no seu livro *Bereavement*. A sua lista é «entorpecimento e choque, seguidos de questionamento, depressão, raiva e, finalmente, resolução».

Parte do aconselhamento no luto consiste em acompanhar a pessoa à medida que esta atravessa as suas próprias fases.


P: Em Jó 6:1-7:21, ao aconselhar alguém, quão importante é validar o que essa pessoa sente?

R: Deve demonstrar que o ouve e que compreende, pelo menos em parte, o que a pessoa sente — isto é, se quiser que ela o ouça. Por vezes, como no caso de Jó, pode validar que os sentimentos da pessoa são naturais e que não tem uma resposta para explicar por que razão estas coisas lhe aconteceram especificamente a ela. Mas, a menos que tenha passado exatamente pela mesma situação, não tente dizer-lhe: «Sei exatamente como se sente», porque não sabe.

Outras vezes, porém, pode acontecer que uma pessoa tenha feito conscientemente algo perverso e esteja furiosa com Deus por ter sido apanhada. Ainda assim, pode demonstrar que compreende em parte o que ela sente e repetir-lhe o que ela está a dizer, mas faça-o de forma a que ela perceba que as consequências podem ser da sua própria responsabilidade. De certa forma, os amigos de Jó estavam a tentar fazer isso com Jó, só que estavam a tentar atribuir as calamidades de Jó a um pecado específico dele, e estavam errados.


P: Em Jó 6:6, o que é aqui descrito?

R: Existe alguma incerteza, mas provavelmente trata-se da clara de um ovo. Em alternativa, poderia ser o interior de um vegetal desconhecido.

Mas, independentemente da palavra, o significado aqui é que as alegrias da vida se tornaram agora insípidas para Jó.


P: Em Jó 6-7, qual é o resumo da resposta de Jó?

R: Jó afirma que as suas palavras precipitadas se devem à grande angústia que Deus lhe causou. Ele deseja que Deus o mate agora, para que, pelo menos, possa morrer sem nunca ter negado as palavras de Deus.

Jó não tem esperança, nem amigos em quem possa confiar, e os argumentos deles não provam nada até ao momento; por isso, desafia-os a ensiná-lo e a mostrar-lhe onde errou.

O capítulo 7 é um discurso sobre as pessoas em geral. O homem enfrenta uma luta durante o seu curto tempo na Terra. Todas as noites, Jó questiona-se sobre quando se levantará, e todos os dias passam rapidamente, sem esperança e sem sentido. Pelo menos a sua vida é breve, pois ele não gostaria de viver muito tempo assim.

Deus, por que se preocupa tanto com o homem, a ponto de o examinar e pô-lo à prova a cada momento? Diga-me o que fiz de errado e por que não me pode perdoar por alguma coisa desconhecida que eu possa ter feito?

Tal como os seus amigos, também Jó assume que o seu grande sofrimento se deve a algum pecado seu, mas não consegue perceber de que pecado se trata.


P: Em Jó 7:20, deveria dizer: «Tornei-me um fardo para si?» (LXX), ou «Tornei-me um fardo para mim mesmo?» (MT)?

R: É muito provável que seja a primeira, a leitura da Septuaginta. Em alguns passagens de Jó, parece que os escribas hebreus suavizaram o significado para que a ira de Jó não parecesse blasfema.


P: Em Jó 7:6, a palavra hebraica significa «sem esperança» ou «sem fio»?

R: Ambas as coisas, porque se trata de um jogo de palavras. Jó está a comparar os seus dias, que passam rapidamente, à lançadeira de um tecelão; a tecelagem chega ao fim quando o fio se esgota. Ibn Ezra foi um dos primeiros escritores judeus a perceber este jogo de palavras.


P: Jó 7:9 e Jó 14:12 negam a ressurreição física?

R: Não. Em Jó 7:9, Jó está simplesmente a dizer que todos os que morrem não regressam. Em Jó 14:12, ele diz o mesmo, exceto que aqui o matiza, afirmando que os homens não regressam até que os céus deixem de existir.

A propósito, embora a Bíblia nos relate fielmente tudo o que Jó disse, nem tudo o que Jó disse é necessariamente verdade. Por exemplo, em Jó 7:7, Jó afirma que os seus olhos nunca mais verão a felicidade.


P: Em Jó 6:14-27, Jó sente que os seus amigos o desiludiram ao virem consolá-lo. Estava Jó certo?

R: Os amigos de Jó tinham boas intenções, mas, de certa forma, sim, desiludiram-no. Embora os seus amigos tenham dedicado tempo a visitá-lo e se tenham sentado com ele porque se preocupavam com ele, não os vemos a reconhecer como Jó se sentia, nem a consolá-lo. Elifaz, para seu crédito, sugeriu a Jó que se voltasse para Deus em Jó 5:8-16. Mas Jó não ouviu verdadeiramente a mensagem quando Elifaz sugeriu que as aflições de Jó se deviam a uma correção pelo seu pecado, em Jó 5:27.

Jó 6:14-15 compara os seus amigos a um wadi, ou ribeiro sazonal, que está cheio de água que corre avidamente durante a estação das chuvas e depois fica sem água na estação seca, quando se precisa realmente dela. A reação de Jó pode parecer excessiva face às palavras ponderadas de Elifaz, mas parte dela deveu-se ao conforto que eles NÃO lhe proporcionaram. Além disso, grande parte da reação violenta de Jó pode ter sido fruto da sua raiva em geral.


P: Em Jó 7:19, o que diz literalmente este versículo?

R: Enquanto algumas traduções apresentam «nem que seja por um instante», o hebraico diz literalmente «o tempo suficiente para engolir a minha saliva», o que a BSB traduz como «engolir a minha saliva». Esta expressão coloquial ainda é utilizada hoje em dia em árabe.


P: Em Jó 7:20, de que forma é Deus um observador dos homens?

R: Trata-se de um aspeto de Deus que incomoda algumas pessoas. Por mais que tente isolar-se, Deus está a velar por si. Um amigo meu da China continental, ao decidir tornar-se cristão, disse que uma coisa em que pensou muito foi: «Se Deus não existisse, então por que razão alguém deveria ser bom quando ninguém está a observar?»


P: Em Jó 8:1-10, em que sentido Bildad não é um bom consolador nesta passagem?

R: Após as palavras de Jó, Bildad aceita o desafio de rebater as palavras de Jó. Aqui, Bildad esqueceu-se completamente de tentar consolar Jó e decidiu que o seu propósito ali era repreendê-lo. Infelizmente, Bildad inicia o seu «consolo» concordando com Jó em Jó 6:26, ao considerar as palavras de Jó como as de um tagarela. Em Jó 8:4, Bildad afirma como um facto que a razão pela qual os filhos de Jó morreram se deve certamente aos seus pecados; mas que, se Jó for inocente, não morrerá. Imagine como alguém que fez o seu melhor pelos filhos e que parecia ter uma doença incurável e fatal reagiria a isso.

A título de nota à parte, deve ter a certeza de que, com a orientação do Espírito, pode exercer um ministério que proporcione consolo aos que sofrem e aos que estão a morrer. Certamente que conseguiria fazer melhor do que estes homens! Talvez Bildad aprenda e os seus próximos discursos melhorem, ou talvez não — veremos.


P: Em Jó 8, qual é a essência do argumento de Bildad aqui?

R: A vida nunca é arbitrária; podem os juncos prosperar sem água? É simples: ao analisar as Escrituras e a relação de causa e efeito, pode compreender tudo. Pode observar os efeitos e perceber a causa; tal como pode ver o papiro e saber que ali existe um pântano. Bildad está ofendido por Jó não conseguir ver isso e, em vez disso, culpar Deus.

Por exemplo, Bildad presumiu que os filhos de Jó pecaram e que, por isso, Deus os matou.

Deus não perverte a justiça.

Deus castiga os pecadores, mas ajuda os justos.

Se Jó fosse realmente justo, Deus ajudá-lo-ia.

Deus não o está a ajudar agora, pelo que Jó não é justo.

Portanto, Jó, o senhor precisa de se converter e arrepender-se de qualquer mal que tenha cometido.

Bildad ouviu com os ouvidos, mas não ouviu com o coração, como demonstra a insensibilidade da sua resposta.


P: Em Jó 8, como responderia resumidamente ao argumento de Bildad?

R: A vida sob o sol nem sempre é justa, e não o será até depois da morte. Como diz o Comentário de Keil-Delitzsch sobre o Antigo Testamento, p. 141: «É verdade que nada do que Deus envia ao homem provém da injustiça, mas não é verdade que tudo o que Ele lhe envia provenha da Sua justiça.»


P: Em Jó 8-10, qual é o ponto principal?

R: Não faz sentido tentar defender-se, «recorrer ao tribunal» e perguntar a Deus por que razão Ele permitiu algo. Não conhecemos o passado das outras pessoas. Não temos uma visão clara de todas as coisas no presente. E certamente não sabemos muito sobre o futuro, nem sobre o que poderia ter acontecido. No início, Jó estava ansioso por discutir com Deus e apresentar-Lhe o seu argumento sobre a inconsistência de Deus. Mas, por fim, até mesmo Jó percebe aqui que não faz sentido discutir com Deus; talvez não venhamos a saber a resposta enquanto vivermos nesta terra. Chegar a esta conclusão é um passo importante para Jó.


P: Em Jó 9-10, qual é o resumo da resposta de Jó neste contexto?

R: Eis um resumo em cinco pontos.

1. Os caminhos de Deus são tão vastos e a Sua sabedoria tão grande que não faz sentido Jó questionar nada do que Ele faz. Deus poderia esmagar Jó por se atrever a falar, pelo que ele não vai falar.

2. Mesmo que Deus castigasse injustamente um homem totalmente inocente, não faria sentido discutir isso perante Deus (ou perante os amigos de Jó, já agora).

3. (E aqui a atitude de Jó tornou-se desagradável) Jó gostaria que houvesse uma terceira parte para arbitrar entre ele e Deus, porque Deus declara as pessoas culpadas sem qualquer recurso, sem prestação de contas, ou mesmo sem que a pessoa culpada saiba o que fez de errado.

4. Pior ainda, Deus pode declarar culpada uma pessoa totalmente inocente, e ninguém pode dizer que Deus é injusto. Jó afirma: «Sou irrepreensível e não sou culpado!» (Jó 9:21; 10:6, 7, 14)

5. Jó detesta a sua vida sob o domínio de um Deus injusto. No entanto, uma questão continua a atormentar Jó: por que razão Deus teve tanto cuidado ao criá-lo e mostrou-lhe tanta bondade, se, desde o início, estava no coração de Deus perseguir o seu servo irrepreensível?

Em resumo, a justiça que está além da compreensão de Jó é, segundo ele, injustiça. No entanto, devemos ter o cuidado de diferenciar entre dizer «não compreendemos agora, portanto nunca compreenderemos, porque não podemos compreender, porque não há justiça para compreender» e «não compreendemos agora, porque ainda não vemos um esboço do quadro completo, que talvez não venhamos a ver nesta vida». Na verdade, Jó vislumbrou o quadro completo no final do livro de Jó.


P: Em Jó 9:5-10, o que há de característico nesta passagem?

R: Estas podem ter sido palavras que Jó utilizou pela primeira vez aqui, ou pode ter sido um hino já existente que ambos conheciam.


P: Em Jó 9:17; 10:2-3, como se sentiria se alguém parecesse zangado consigo sem motivo?

R: Poderá passar por diferentes fases, e isso pode ser, de certa forma, semelhante ao luto. Primeiro, poderá pensar que a outra pessoa tem um bom motivo, mas que ainda não o percebeu. No entanto, assim que concluir que isso não é verdade, poderá então ponderar se existem outros fatores externos. Em terceiro lugar, poderá questionar a «imparcialidade» daquele que está zangado consigo. Por fim, poderá chegar ao ponto de não se importar, porque percebe que é impossível saber por que razão a pessoa está zangada e o que pode fazer a esse respeito.


P: Em Jó 9:18, por que razão algumas pessoas sentem amargura em relação aos outros, à vida ou a Deus?

R: A amargura é um ressentimento crónico. Pode incluir um ou mais dos seguintes sentimentos: tristeza, raiva, repulsa e desilusão. As pessoas amargas tendem a ter mais desacordos e relações mais difíceis com os outros. Uma pessoa amarga sente que está a sofrer injustamente, talvez por algo que não fez, que pensa não ter feito, ou então por algo que sabe que fez, mas que considera que a punição não deveria ser tão severa. Essas pessoas agarram-se a duas coisas: que estão a ser tratadas injustamente e que a vida e as outras pessoas deveriam ser justas. É verdade que as outras pessoas deveriam ser justas e, muitas vezes, não o são. Da mesma forma, devemos fazer o nosso melhor para tratar os outros com justiça. Mas a vida e os outros não nos tratam com justiça e, se o nosso pensamento «estiver preso a esta vida», então, mesmo como crentes, podemos tornar-nos amargos. No entanto, o nosso pensamento não deve centrar-se nesta vida, mas nas coisas celestiais (Filipenses 3:19-20), e é-nos ordenado que nos livremos de toda a amargura em Efésios 4:31 e Hebreus 12:15. Isso significa, pelo menos, duas coisas. Em primeiro lugar, descubra qualquer recanto no seu coração onde a amargura possa estar escondida. Em segundo lugar, reze para se livrar dela e perdoe as pessoas, incluindo a si próprio. Perdoe os outros, mesmo que não se arrependam e não lhe tenham pedido perdão. A amargura é como beber veneno e esperar que isso magoe a outra pessoa. Perdoar é algo que também faz pelo seu próprio bem, não apenas pelo bem da outra pessoa.


P: Em Jó 9:30, o que está Jó a dizer sobre ser lavado?

R: Algumas traduções referem «lavado com água de neve». No entanto, M.H. Pope, na obra «Job» (Anchor Bible, vol. 15), p. 75, demonstra que «seleg» significa «sabão», e não «neve».


P: Em Jó 9:21-24, por que razão Jó é tão radical aqui?

R: Estas não são palavras adequadas. Mas, por vezes, quando uma pessoa está em depressão e desesperada, pode dizer coisas precipitadas.


P: Em Jó 9:25-31, de que forma um corredor, barcos velozes e águias descrevem a nossa vida na Terra?

R: Jó está a dizer que, de qualquer forma, nenhum de nós tem realmente muito tempo na Terra. Ao utilizar as três analogias — de um corredor, de navios e de uma águia —, ele está a comparar três das coisas mais velozes na terra, no mar e no ar. A palavra para «águia» aqui pode significar uma águia, um abutre, um falcão ou um gavião. Os falcões-peregrinos podem atingir velocidades de 186 milhas por hora (300 km por hora). Assim, o único pequeno consolo que Jó vê aqui é que a sua vida, de qualquer forma, não iria durar muito tempo.


P: Em Jó 9:29, que tipo de desesperança é aqui expressa?

R: Jó pergunta, ironicamente, que sentido tem tentar fazer o bem, se Deus não se importa e já o condenou? Hoje em dia, algumas pessoas sentem o mesmo. Uma vez que já cometeram o mal, sentem que é demasiado tarde para elas e que Deus nunca as perdoará.


P: Em Jó 10:1-7, o que é que Jó está a admitir aqui?

R: Em Jó 9:2, Jó afirma que, pelo menos em parte, o que Bildade diz é verdade. Jó parece começar a deixar-se convencer por Elifaz e Bildade. Está a começar a duvidar da sua vida e a pensar que as suas calamidades demonstram que é ímpio perante Deus. No entanto, Jó não consegue compreender como.


P: Em Jó 10:18-22, o que poderia dizer a alguém que se sente encurralado e sem esperança?

R: Essa pessoa precisa de ver pelo menos um vislumbre de esperança. Bildad, apesar de todas as suas falhas, ainda assim acertou em cheio quando previu, em Jó 8:21, que Deus «ainda encherá a sua boca de risos».


P: Em Jó 11:1-20, que tipo de pessoa acha que Zofar era?

R: Zofar foi o último a falar; por isso, é provável que tenha sido o último porque era o mais novo dos três e o mais severo. Tal como Bildad, Zofar também não é muito educado para com Jó. Mas enquanto Bildad pensa que tudo é fácil de compreender, Zofar é diferente; ele afirma que há muito que não sabemos sobre Deus. Zofar é dogmático quanto às suas opiniões e não demonstra qualquer simpatia por Jó. Zofar nunca questiona se Jó é ou não culpado de um grande pecado; isso é um dado adquirido que Zofar simplesmente pressupõe. Como ousa Jó afirmar o contrário!

Elifaz fundamentou o que disse com as suas observações. Bildad fundamentou o que disse com a história. Zofar, por sua vez, não fundamentou de todo o que disse.


P: Em Jó 11:1-20, poderá um cristão de hoje, ou mesmo nós próprios, ser alguma vez um adversário involuntário de Deus?

R: Zofar é a forma masculina do nome feminino Zípora. Tanto Zofar como Zípora, a esposa de Moisés, eram crentes que se tornaram adversários involuntários de Deus. Pedro estava involuntariamente a opor-se a Deus e a ser usado por Satanás para tentar Jesus em Mateus 16:22-23. Se Pedro pôde sê-lo, nós também podemos. Quando pensamos que precisamos de dizer a Deus que Ele tem de fazer algo, estamos em terreno muito instável. Poder-se-ia argumentar que Pedro não tinha o Espírito Santo naquele momento, mas hoje os cristãos podem optar por agir sem orar ou sem ouvir Deus. Se alguma vez estiver tão certo das suas palavras e ações que ache que não precisa de as comparar com as Escrituras, poderá estar a ser um adversário involuntário de Deus. Mas a boa notícia é que, tanto para Pedro, como para os amigos de Jó e para os cristãos, se seguirmos a Deus, lermos a Bíblia e orarmos, Deus pode corrigir-nos.


P: Em Jó 11:1-20, qual é o argumento de Zofar aqui?

R: Zofar não abordou os argumentos de Jó. Em vez disso, apresentou uma mensagem mais severa: «Não podemos compreender os mistérios de Deus, por isso, basta aproximar-se de Deus e arrepender-se, sem pensar mais nisso». Mais concretamente, Zofar afirmou com severidade:

1. Jó, o senhor deve ser repreendido por dizer isso sobre Deus.

2. Diz a Deus que é irrepreensível, mas quem pode realmente conhecer Deus ou a Sua justiça?

3. Por isso, examine a sua alma, dedique-se a Deus e abandone o seu pecado [não especificado].

4. Então Deus resgatá-lo-á, em vez de o deixar cair como os ímpios.

Tanto Zofar como Jó concordam que não podemos conhecer Deus e que Deus castiga os ímpios e recompensa os justos. Mas Zofar exige que Jó reconheça a sua maldade.


P: Em Jó 11, como é que se fala com alguém que discorda de si devido a um pressuposto errado que essa pessoa não questiona?

R: Pode ser difícil, mas talvez consiga, pelo menos, levá-lo a perceber que há um ponto que não está a questionar, ao passo que outros o fazem. Existem, pelo menos, quatro abordagens que pode utilizar. As últimas três são como «bumerangues», em que se questiona a pessoa sobre outra pessoa e, depois, a questão volta para ela.

a) Hipoteticamente falando: Certa vez, estava a conversar com um líder de casa na Igreja da Unificação do Rev. Moon e, após discutirmos vários assuntos, perguntei-lhe: «Hipoteticamente falando, se soubesse que o Rev. Moon não era realmente enviado por Deus, o que faria? Sairia ou ficaria?» Depois de lhe ter lembrado gentilmente da pergunta algumas vezes, ele acabou por dizer: «É desonroso e desrespeitoso sequer questionar o Reverendo Moon.» Em seguida, pediu-me que saísse e disse que eu não era bem-vindo de volta. Uma das coisas que essa pergunta revelou foi que a barreira não era intelectual, mas sim de vontade. Já fiz perguntas semelhantes a outras pessoas e, por vezes, elas devolvem-me a mesma pergunta. Respondo que sei que Jesus é realmente enviado por Deus, mas, hipoteticamente falando, se descobrisse que isso não era verdade, seguiria a verdade, aconteça o que acontecer.
b) Uma situação hipotética, tal como Natã fez com David em 2 Samuel 12:1-13, quando apresentou um caso jurídico hipotético.

c) Outra abordagem consiste em recorrer a um «observador hipotético». Quando se recusam sequer a admitir a possibilidade de poderem estar enganados, pergunte-lhes como é que um observador externo avaliaria a sua resposta.

d) Pergunte-lhes como fazer com que alguém perceba que pode estar errado. Isto é um pouco difícil de explicar, por isso eis um exemplo, utilizando um budista e um muçulmano, mas isto poderia ser feito com quaisquer duas religiões. Suponhamos que um budista não esteja realmente aberto a considerar que o budismo possa estar errado. Poderia perguntar-lhe: se encontrasse um muçulmano que pensasse que a Jihad era algo positivo, que sempre lhe tivessem ensinado que as mulheres são menos inteligentes do que os homens e que o seu testemunho num tribunal deveria valer metade do de um homem, e que era aceitável violar mulheres capturadas em batalha, pergunte ao budista o que poderia dizer ao muçulmano para lhe mostrar que essas crenças estão erradas. Interaja com a resposta dele e mencione que o muçulmano aprendeu essas coisas ao longo de toda a sua vida e que ninguém que ele respeitasse alguma vez as tivesse questionado. Passado algum tempo, saliente que não é apenas um muçulmano que pode acreditar em coisas erradas sem nunca as questionar; um budista ou mesmo um cristão também o poderia fazer, potencialmente. Como saberia que não está a acreditar em coisas muito erradas apenas porque nunca ouviu o contrário? Mas esteja preparado para que lhe façam a mesma pergunta (o que é justo). Pode responder com base na apologética e no seu testemunho pessoal. Depois, certifique-se de que lhes volta a perguntar.

Neste caso específico, Jó poderia ter perguntado a Zofar: «Acha que é possível que algo de mau aconteça a uma pessoa sem que seja uma consequência direta do seu pecado? É isso que diria aos pais que perderam um filho, a todas as pessoas idosas que tiveram um problema de saúde ou a alguém cujos familiares morreram de fome, especialmente se pudesse tê-los ajudado em vez de ajudar outros?» Portanto, se alguma coisa má alguma vez lhe acontecer a si ou à sua família, posso ter a certeza de que é devido ao seu próprio pecado ou ao deles, está correto? Talvez não seja assim que Deus age. Talvez Deus permita que coisas más aconteçam ao Seu povo obediente, injustamente, e Deus nos dará muito mais do que alguma vez perdemos no céu.


P: Em Jó 11:6, será que Deus realmente esqueceu alguns dos nossos pecados, como disse Zofar?

R: Não. Nem tudo o que os amigos de Jó disseram está necessariamente correto. Zofar estava a simplificar em demasia na sua resposta, tal como simplificou em demasia e tirou conclusões precipitadas na sua análise. Zofar estava a dizer, de forma poética, que Deus não estava a castigar Jó tanto quanto ele merecia. De facto, no final do livro de Jó, foi dito a Jó para oferecer um sacrifício em nome dos seus amigos pelas palavras erradas que estes proferiram. Zofar está correto, embora de forma excessivamente simplificada. Deus sabe tudo, pelo que não esquece os factos. Deus castigará todos os pecados, mas castigou todos os pecados perdoados ao fazer com que Jesus suportasse o castigo na cruz. No entanto, Zofar tem razão ao afirmar que, para aqueles cujos pecados são perdoados, «Tão longe como o Oriente está do Ocidente, assim afastou Ele de nós as nossas transgressões.» (Salmo 103:12).


P: Em Jó 11:7-8, podem os seres humanos conhecer Deus?

R: Sim e não, se bem compreendido. Embora Zofar não estivesse correto em tudo o que disse, a sua visão sobre conhecer Deus estava essencialmente correta. O próprio Zofar afirma implicitamente conhecer muitas coisas sobre Deus, a julgar por tudo o que afirmou a respeito Dele. No entanto, Zofar reconheceu que não sabia nem podia saber tudo sobre Deus. Ele está a dizer que não devemos fingir que podemos saber tudo sobre Deus, tais como os Seus mistérios e as profundezas do Seu conhecimento.

Qualquer teologia que afirme que Deus é todo mistério, ou completamente incognoscível, está errada. Da mesma forma, qualquer teologia que afirme que Deus não tem mistério e que pode ser totalmente compreendido pelas nossas mentes pequenas e mortais apresenta um Deus que é demasiado pequeno.


P: Em Jó 12-14, qual é o argumento de Jó aqui?

R: Este é o segundo discurso mais longo de Jó. Jó está basicamente a dizer: não me menosprezem tentando ensinar-me o que eu já reconheço. A sabedoria e o poder pertencem a Deus, que está acima da natureza, das pessoas e das nações. Porquê eu? Eu, Jó, uma pessoa piedosa, sou motivo de escárnio, e foi Deus quem fez isto, enquanto deixa os saqueadores em paz. Deus tem sabedoria e poder sobre os animais, os indivíduos, a natureza e as nações.

Quem me dera poder defender a minha causa perante Deus, porque vocês não valem nada. Sei que poderia defender os meus atos. Pediria a Deus que deixasse de me amedrontar e que me mostrasse o que, se é que há algo, eu fiz de errado. A nossa vida é tão curta e, ao contrário de uma planta, só vivemos e morremos uma vez. Dada a situação, quem me dera que Deus se apressasse e me matasse.


P: Em Jó 12:4, como é que Deus respondeu a Jó?

R: Deus não estava a responder a Jó naquele momento, mas já lhe tinha respondido antes de todas estas calamidades ocorrerem. Ele tinha ensinado a Jó que, aconteça o que acontecer nesta vida, deve confiar em Deus, que concede a vida eterna.


P: Em Jó 12:6, de que forma é que algumas pessoas carregam o seu deus nas mãos?

R: Esta expressão descreve adequadamente as pessoas que adoram um ídolo que as suas próprias mãos podem carregar. Hoje em dia, os ocidentais também adoram deuses que podem carregar quando veneram o dinheiro, os bens materiais e a si próprios.


P: Em Jó 12:13-25, qual é o argumento de Jó?

R: Embora os amigos de Jó afirmem ser tão sábios, e Jó diga que é tão sábio quanto eles (Jó 12:3), em última análise, ninguém é sábio em comparação com Deus. Jó 12:13-25 também salienta que ninguém é poderoso em comparação com Deus.


P: Em Jó 13:4-5, nenhum dos amigos de Jó tinha um grande pecado para imputar a Jó, mas, mesmo assim, todos agiram como se tivessem, para validar a sua visão do mundo. De que forma é que as pessoas hoje em dia podem inventar coisas para as quais não têm fundamento, a fim de sustentar a sua visão do mundo?

R: É possível perceber quando isto acontece bastando perguntar: «Mostre-me as suas provas.» É muito, muito fácil para as pessoas caídas passarem de «Gostaria que isto fosse verdade» para «Provavelmente é verdade» e, por fim, para «Sei que isto é verdade». Isto pode acontecer em qualquer contexto, incluindo a política e a religião. Uma das causas para tal é quando «apoiar a narrativa» das conclusões que deseja que alguém tenha se torna mais importante para si do que «qual é a verdade real?».


P: Em Jó 13:15, o hebraico deve ser traduzido como «Vou esperar n’Ele» ou «Não tenho esperança»?

R: As palavras hebraicas podem ser traduzidas de ambas as formas. A resposta depende de se concluir que Jó está a ser otimista ou pessimista neste contexto. A ambiguidade reside na palavra hebraica que pode ser traduzida como «esperar», «hesitar» ou «tremer». Uma vez que a palavra pode ser interpretada de ambas as formas, é necessário analisar o contexto, e o contexto aqui é o final do segundo discurso mais longo de Jó. Como Jó afirma que sabe que, no final, será justificado como um seguidor justo de Deus, a tradução correta é «Vou esperar Nele», pois expressa a fé de Jó, e não a sua dúvida.


P: Em Jó 13:23, quando devemos pedir a Deus que nos mostre os nossos pecados?

R: É louvável que Jó, pelo menos, acabe por pedir a Deus que lhe mostre os seus pecados que possam ser a causa de estar a ser severamente castigado. Não temos de esperar que algo assim nos aconteça; podemos e devemos pedir a Deus que nos mostre as nossas falhas e pecados ocultos. Estes não estão ocultos a Deus, e podem nem sequer estar ocultos aos outros, mas podem estar ocultos a nós próprios.


P: Em Jó 14:13-22, Jó nega a existência de uma vida após a morte?

R: Jó levanta a questão da vida após a morte em Jó 14, mas depois responde-lhe. Jó afirma a existência de uma vida após a morte por, pelo menos, quatro razões.

1. Jó não estaria preocupado com o facto de Deus encobrir o seu pecado em Jó 14:16-17, se, assim que morresse, os seus pecados desaparecessem de qualquer forma, uma vez que ele já não estaria presente.

2. Jó 14:13 diz que Jó deseja ficar oculto na sepultura, até que a ira de Deus tenha passado.

3. Em Jó 13:15, Jó tem a confiança de que se apresentará perante Deus como justificado, mesmo que isso aconteça após a sua morte. Consulte a discussão sobre Jó 13:15 para mais informações.

4. Ao longo de todo o livro de Jó, este é apresentado como um homem que pensa a longo prazo, e não como alguém que pensa apenas nesta vida física na Terra.

Por exemplo, Jó 19:26-27 afirma que, mesmo depois de a sua pele ter sido destruída, ele sabe que verá Deus.


P: Em Jó 15, o que podemos dizer sobre este segundo ciclo de três discursos e três respostas de Jó?

R: Embora as opiniões dos três chamados consoladores não tenham mudado, nem as de Jó, verifica-se um endurecimento dos seus pontos de vista, bem como um endurecimento dos de Jó. Elifaz é muito menos educado do que era no primeiro discurso, mas continua a ser mais educado do que os outros dois.


P: Em Jó 15, qual é uma breve sinopse do discurso de Elifaz aqui?

R: Elifaz começa aqui com um argumento válido. Ele diz a Jó que as suas respostas amargas são impróprias de um sábio homem de Deus. Não há problema em responder e expressar o que sente, mas fale com palavras proveitosas, não com palavras vazias que não servem para nada. Existem três partes principais.

(15:1-13) Ouça, Jó, o senhor é sábio, por isso julgue as suas próprias palavras. As suas palavras pecaminosas não só são inúteis, como também minam a piedade quando afirma saber mais do que Deus e se enfurece contra Ele, em vez de encontrar consolo Nele. O senhor afirma ser mais justo do que Deus.

(15:14-16) Uma vez que nada no universo é santo em comparação com Deus, não lhe cabe a si tentar justificar-se. Uma vez que as pessoas são más, mantenha-se em silêncio, pare de questionar e aceite simplesmente a sua condição como um resultado inevitável da misteriosa justiça de Deus.

(15:17-35) Os ímpios serão certamente castigados. Embora possam agora ser ricos e bem alimentados, a sua destruição chegará.


P: Em Jó 15:7-8, de que formas é que os não-cristãos por vezes pensam que são mais sábios do que Deus?

R: Alguns muçulmanos consideram ridículo que os cristãos devam dar a outra face. Os objetivistas afirmam que é insensato ajudar altruisticamente estranhos. Os gananciosos consideram antiquado tentar não amar o dinheiro. Um mórmon disse-me uma vez que achava que, quando Deus criou tudo, cometeu muitos erros; e que, quando se tornar um deus, fará melhor.


P: Em Jó 15:7-8, de que formas é que os cristãos podem, por vezes, pensar que são mais sábios do que Deus, sem o dizerem explicitamente?

R: Quando Deus ordena uma coisa e nós dizemos a Deus e aos outros que temos uma maneira melhor. Se não percebermos a razão por detrás da ordem de Deus e, essencialmente, afirmarmos que só obedeceremos ao que Deus diz quando compreendermos essa razão. Por exemplo, 1 Timóteo 2:11-12 afirma que uma mulher não deve ensinar nem exercer autoridade sobre um homem. Não se trata de que uma mulher não possa ser uma líder piedosa e sábia, como o foi a juíza Débora; trata-se, em última análise, de que é isso que Deus deseja. Podemos discutir em vão as razões pelas quais Deus quis isso, ou tentar ver tudo no futuro tal como o Deus Onisciente o faz, mas a verdadeira questão que devemos debater é esta: se o Senhor nos disser para fazer algo, em consonância com o que Ele já disse, e não compreendermos a razão, obedeceremos na mesma ou não?


P: Em Jó 15:16, de que formas é que as pessoas bebem a injustiça como água, ou bebem o escárnio como água, tal como se refere em Jó 34:7?

R: Tal como sentimos que precisamos de água para viver, uma pessoa má sente uma sede que a leva a precisar da sua maldade para viver, porque é viciada nela. Tal como gostamos de beber, algumas maldades são cometidas não por uma necessidade percebida, mas porque lhes dá prazer. As pessoas más «bebem águas em abundância» porque pensam que Deus não as está a observar ou não sabe o que estão a fazer, como diz o Salmo 73:10-11.


P: Em Jó 15:1-35, quais são algumas das melhores formas de aconselhar alguém?

R: Eis uma citação de Martyn Lloyd-Jones. «Lembro-me do caso de uma senhora que estava a passar por um desses períodos de aridez e secura e que se encontrava em grande angústia. Era, em parte, uma questão física, e muitos dos seus amigos tinham-na procurado, sendo alguns deles ministros da Palavra, e todos tinham falado da mesma forma. Todos tentavam fazê-la reanimar-se, falando-lhe de forma teórica e dizendo que os sentimentos não importam, que, na verdade, nada importa, exceto a verdade da justificação pela fé. Ela sabia disso tão bem quanto eles, na verdade melhor do que muitos deles, mas isso não a ajudava, porque o seu problema era não reconhecer a bem-aventurança que outrora conhecera. «Onde está a bem-aventurança que conheci quando vi o Senhor pela primeira vez?» Essa era a sua condição, a condição descrita pelo poeta William Cowper.

Os conselhos dos seus amigos não a ajudaram, porque nunca ajuda pessoas assim dizer-lhes para se recomporem e se animarem. É precisamente isso que elas não conseguem fazer… A forma de ajudar uma pessoa assim, a forma como a pessoa em particular a quem me refiro foi ajudada, é dizer: «Ah, sim, sabe, há períodos assim na vida dos santos. Por vezes, Deus, pelas Suas razões insondáveis, esconde de nós o Seu rosto.» Ela olhou para mim com espanto, perguntando: «Isso é verdade?» «Claro que é verdade», respondi, e passei a dar-lhe muitos exemplos e ilustrações disso. De imediato, o seu problema ficou resolvido, porque agora ela tinha uma explicação…» M. Lloyd-Jones, Romanos: Uma Exposição dos capítulos 8:17-39: A Perseverança Final dos Santos (Banner of Truth, 1975, p. 176), citado de The Message of Job, de David Atkinson, pp. 47-48.


P: Em Jó 15:21, 34, o que é que Elifaz está a dizer aqui?

R: Elifaz falara em termos gerais anteriormente, mas não parecia que Jó tivesse compreendido a mensagem. Por isso, Elifaz é agora mais específico. Ele afirma em Jó 15:21 (compare com Jó 1:17) que o destruidor se abate repentinamente sobre o ímpio e lhe retira os seus bens no auge da sua prosperidade. Os sabéus e os caldeus atacaram repentinamente os seus rebanhos e manadas. As casas desmoronam-se ou caem em Jó 15:28 (compare com Jó 1:19). Por conseguinte, Jó deve ser um homem ímpio. Jó 15:30,34 afirma que o fogo consome os ímpios, tal como em Jó 1:16. Jó 15:34 afirma que o homem ímpio ficará estéril, daí Jó ter perdido os seus filhos.


P: Em Jó 15:27-31, como é que algumas pessoas, tais como Elifaz, partem do princípio de que, se uma pessoa tem dinheiro, é má por confiar na sua riqueza?

R: Embora seja errado confiar no dinheiro, nem todas as pessoas ricas confiam na sua riqueza. O facto de terem sofrido uma calamidade não é prova de que estejam sob a disciplina ou o julgamento de Deus por confiarem no dinheiro. É demasiado fácil para as pessoas fingirem que sabem exatamente o que Deus está a pensar, como Deus age e, consequentemente, como julgar os outros. Um ponto importante que pode aprender em Jó, mesmo que não aprenda mais nada, é que não pode presumir conhecer os julgamentos de Deus e a forma como Ele lida com os outros.

Embora os outros amigos também partilhem da mesma opinião, Elifaz é o mais explícito nestes três versículos. Ele é um exemplo de um crente que acredita na verdade no que diz respeito a questões essenciais, mas que combina isso com pressupostos teologicamente errados. É possível que um cristão hoje em dia seja salvo, acreditando nas verdades fundamentais das Escrituras, e, ao mesmo tempo, combine isso com crenças erradas sobre outras questões. Por exemplo, o racismo, o sexismo, o chauvinismo em relação ao seu país ou a crença na violência contra os outros devido às suas crenças. Agostinho de Hipona, os líderes católicos romanos, Martinho Lutero e João Calvino falharam todos nesta última categoria. E se eles podem combinar as verdades das Escrituras com mentiras graves, não devemos pensar que não precisamos de nos proteger também disso.


P: Em Jó 16-17, qual é o resumo do discurso de Jó aqui?

R: O que se passa convosco, que continuam a discutir, em vez de encorajar e consolar? Deus utilizou a família, a saúde, os escarnecedores e os ímpios contra mim. Que o meu clamor nunca se cale. Eu [Jó] irei em breve para a sepultura. Ainda bem que tenho esperança na sepultura, caso contrário, não teria qualquer esperança!


P: Em Jó 16:2, como se sente quando os amigos em quem pensa poder confiar parecem não ter qualquer compaixão por si?

R: É natural sentir-se desapontado, até mesmo zangado, e talvez desiludido. Se confiou nos seus amigos e eles o desiludiram, então em quem pode confiar? Em Deus. Se a sua confiança estiver em Deus, poderá ainda assim sentir-se desapontado e zangado com os seus amigos, mas também poderá ver para além disso, que, na verdade, a nossa única esperança e rocha é Deus.


P: Em Jó 16:18-19, por que razão Jó pede poeticamente à terra que não cubra o seu sangue?

R: Trata-se de um pensamento muito típico do Médio Oriente. Jó não quer que as suas provações sejam esquecidas, à semelhança de Deus dizer que o sangue de Abel, metaforicamente, «clama a Mim da terra» em Génesis 4:10. Neste momento de desânimo, Jó quer que o mundo saiba como tem sido tratado injustamente. Jó sente que está a ser ridicularizado por algum mal não especificado e deseja ser absolvido, não apenas abandonado e depois esquecido. Nesta altura, o seu desejo de limpar o seu nome e mostrar que é piedoso é maior do que o seu desejo de glorificar Deus. Encontra-se uma expressão semelhante em Isaías 26:21, onde se profetiza que a terra revelará o sangue e as pessoas mortas que nela se encontram.


P: O que significa Jó 17:3?

R: Jó está a pedir a Deus que lhe diga o que deve pagar (ou fazer), pois não acredita que possua aquilo que Deus deseja.


P: Em Jó 17:11-16, Jó aceita o facto de que parece que irá morrer em breve. Como é que as pessoas hoje em dia reagem quando se apercebem da sua morte iminente, e como devem os cristãos sentir-se?

R: Hoje em dia, as pessoas podem reagir com depressão, desespero e, ou com falta de vontade de fazer qualquer coisa, ou com disposição para fazer coisas insensatas e arriscadas. Mas um cristão deve regozijar-se por saber que em breve regressará a casa e desejar terminar a sua vida na Terra com força.


P: Em Jó 18:1-21, qual é o argumento de Bildad aqui?

R: Bildad diz a Jó para não ser tão prolixo e para não os menosprezar. Em seguida, Bildad faz um discurso sobre as muitas formas como Deus castiga os ímpios impenitentes, de forma severa e permanente. Tal como se refere em *The Message of Job*, de David Atkinson, pp. 53-54, Bildad faz um discurso que soa bem, mas não aborda a situação de Jó.

A frase de Bildad significa literalmente «Até quando irá procurar palavras?». Bildad acusa Jó de tentar encontrar palavras para preencher o vazio quando, na verdade, não tinha nada a dizer. Há alguma verdade na acusação de Bildad. No que dizemos, devemos expressar o que é necessário e, em seguida, parar. Demasiadas palavras não significam que estejamos a ajudar a nossa causa. Quando Jó afirmou que os animais mudos tinham mais juízo do que os seus amigos, em Jó 12:7-9, provavelmente poderia esperar respostas semelhantes a esta.

Existem pelo menos seis palavras hebraicas diferentes para designar armadilhas (rede, malha, armadilha no solo, laço, etc.), e Bildad utiliza todas as seis aqui. As armadilhas podiam ser feitas de diferentes materiais e ter aspetos distintos, mas todas têm em comum o facto de selarem o destino daqueles que nelas ficam presos.


P: Em Jó 18:1-21, já alguma vez foi acusado de ser arrogante quando não o era, e como deve reagir?

R: Em primeiro lugar, precisamos de compreender o que é a arrogância. Algumas pessoas definem a arrogância como pensar que se é realmente bom em algo, ou melhor do que outra pessoa em algo. Mas e se eu conhecer o campeão mundial de halterofilismo e ele achar que é melhor halterofilista do que eu? Estará ele apenas a ser arrogante? Ou terá apenas uma visão precisa dos factos? Essa é uma definição medíocre de arrogância.

Outros consideram a arrogância como um sentimento de ser, de alguma forma, mais importante do que os outros. Em todas as empresas em que trabalhei como programador de software, tenho a certeza de que o CEO da empresa sentiu que poderia influenciar a rentabilidade da empresa muito mais do que eu. Então, será que todos os CEOs são arrogantes? Ou será que todos esses CEOs estariam totalmente corretos nesse aspeto?

É muito comum uma pessoa pensar que é mais importante para o sucesso de algo do que realmente é. Por vezes, as pessoas que mais se irritam quando alguém parece arrogante (seja na perceção ou na realidade) são as próprias pessoas que são arrogantes.

Numa empresa onde trabalhei, estavam a entrevistar alguém para um cargo de programador front-end sénior. Eu não fazia parte do processo de entrevista, mas estava sentado muito perto das pessoas que participavam e conseguia ouvir a discussão. Concordaram que o candidato era muito bom, mas questionaram se o deveriam contratar porque achavam que ele era arrogante. (Eu não tinha conhecido o candidato, por isso não tinha uma opinião.) Acabaram por contratá-lo na mesma, e eu acabei por me sentar relativamente perto dele e trabalhei um pouco com ele. Ele conhecia definitivamente bem a sua especialidade técnica, mas não era de todo arrogante. Outros procuravam-no regularmente para receber orientação. Havia um segundo colega que também era bom na mesma especialidade, e eles trabalhavam bem em conjunto. Mais tarde, foi contratada uma jovem que também dominava a mesma especialidade. Depois de ter trabalhado algum tempo com ela, ele dizia abertamente aos outros que ela sabia mais do que ele e que era melhor do que ele. Portanto, ele era exatamente o oposto de arrogante. Mas a apreensão inicial, de que ele fosse arrogante, era simplesmente uma confusão entre arrogância e o facto de alguém ser bom no que fazia e ter consciência disso.

O que é preciso fazer para parecer arrogante? Às vezes, absolutamente nada! Um Product Owner e eu éramos as únicas duas pessoas a trabalhar num projeto que, segundo o departamento de operações, poupava cerca de um milhão de dólares por trimestre. Ele recebeu o prémio de «Colaborador Não Técnico do Trimestre» e eu recebi o prémio de «Colaborador Técnico do Trimestre». Quando o CEO se dirigia aos colaboradores, referia frequentemente o quão fantástico era termos aquele produto. Para além do bónus habitual, recebi também um bónus de 5 mil dólares diretamente do CEO. Mais tarde, quando surgiu a COVID, tive de fazer uma grande reformulação do produto para nos adaptarmos às novas formas de trabalhar. Consegui fazê-lo em cerca de uma semana. Mais tarde, o CEO referiu a todos o quão importante era sermos ágeis e conseguirmos fazer isso. Não me gabava nem me vangloriava do que tinha feito; limitei-me a «deixar as minhas mãos falarem por si», programando o que era necessário. Embora nunca tenha recebido uma promoção por essa conquista — e o meu gestor tenha recebido uma promoção pela mesma conquista —, recebi o ressentimento implacável do meu gestor, que afirmou que «eu o tinha feito ficar mal visto». (Não me lembro se isso foi antes ou depois da promoção dele.) Essa foi a primeira e única vez que vi um gestor, a dois meses do fim do ano, retirar metas de desempenho que eu já tinha cumprido (incluindo a reformulação do software para a COVID) e acrescentar algumas novas metas, quando eu também tinha algumas férias nesses dois meses. Ele disse-me que eu nunca poderia ser chefe de equipa, porque os outros chefes de equipa não me aceitariam. (Talvez isso fosse verdade, tendo em conta o que ele poderá ter dito aos outros chefes de equipa sobre a minha arrogância.) Com a consciência tranquila, posso afirmar que não fiz nada que fosse arrogante, para além de tentar fazer bem o meu trabalho. Acabei por arranjar outro emprego e demiti-me, e soube que, alguns meses depois, ele foi despedido.

Portanto, o que importa é perceber que, por vezes, pode ser considerado arrogante. Pode tratar-se de uma acusação falsa, mas, mesmo assim, examine o seu coração para se certificar de que não o é. Por outro lado, não pense que outra pessoa é arrogante apenas porque é genuinamente boa em algo, ou porque tem razão em considerar que desempenha um papel mais importante.

Mas, até agora, nunca definimos realmente o que é a arrogância. A arrogância consiste em pensar que é uma pessoa mais importante do que outra, esquecendo-se de que todos nós fomos criados à imagem de Deus e deixando de recordar que devemos tratar todos com respeito. Pode valorizar as contribuições dos outros não só silenciosamente, mas também verbalmente e publicamente, sem se sentir ameaçado, pois a sua autoestima não depende deles. A sua autoestima já lhe foi concedida por Deus.

Os antídotos contra a arrogância incluem ser um servo (ver Romanos 15:16; Gálatas 5:13), lembrar-se de que os últimos serão os primeiros (Mateus 19:30; 20:16; Marcos 10:31; Lucas 13:30) e considerar os outros mais importantes do que vós próprios (Filipenses 2:3 e seguintes).


P: Em Jó 18:16, o que significa não ter raiz nem ramo?

R: Uma raiz é uma metáfora para aqueles que o precederam e o apoiam. Um ramo é uma metáfora para aqueles que vêm depois de si e dão origem a descendentes que darão continuidade ao seu nome. Se não tiver nem uma coisa nem outra, a sua memória será totalmente esquecida.

Trata-se de uma expressão do Médio Oriente; no sarcófago de Eshmunazar está escrito: «que ele não tenha raiz abaixo nem ramo acima», de acordo com o Comentário de Keil-Delitzsch sobre o Antigo Testamento, vol. 4, pp. 328-329.


P: Em Jó 19:1-29, qual é o argumento de Jó aqui?

R: Este capítulo representa provavelmente o ponto mais baixo de Jó. Mas, paradoxalmente, é também do meio deste desespero da vida na terra que surge o ponto mais alto de Jó. A resposta de Jó tem cinco partes.

(19:1-6) Deviam envergonhar-se das vossas palavras. Embora vocês, os meus três amigos, me atormentem com palavras, não precisam de-se exaltar acima de mim. Deus fez-me injustiça.

(19:7-12) Embora eu clame «violência», Deus permanece em silêncio. Pior ainda, é Ele quem me está a privar da honra e a atacar-me.

(19:13-20) Deus afastou a minha família de mim, as crianças pequenas zombam de mim e eu escapei por um triz.

(19:21-22) Por isso, tenham piedade de mim. Não me persigam como Deus faz.

(19:23-29) Eu, Jó, sei que, no fim, ainda verei Deus, e continuo a ansiar por vê-Lo. Por isso, deixem de me incomodar, ou então pensem no julgamento de Deus para vós próprios.

Jó queria alguns amigos nesta situação, mas tudo o que tinha eram três acusadores. Deus estava à espera nos bastidores para consolar Jó, mas Jó acusava Deus de injustiça e de ser o responsável por tudo isto. Jó não via qualquer diferença entre Deus fazer isto e Deus permitir que isto acontecesse. Jó concluiu que o seu sofrimento não tinha sentido, porque não lhe via o sentido. O sofrimento de Jó provinha de Satanás, mas Deus utilizou-o para a Sua glória. Apesar de tudo isto, apesar de Jó pensar erroneamente que Deus estava contra ele, Jó continuava a ansiar por ir para o Céu e estar com Deus. Apesar das piores circunstâncias possíveis, Jó permaneceu inabalável na sua certeza da salvação e no lugar onde desejava estar.


P: Em Jó 19:3, o que pensaria se sentisse que Deus, por assim dizer, o tinha «injustiçado»?

R: Em primeiro lugar, a reação de Jó não é um exemplo a seguir. Lamentar-se é aceitável. No entanto, Jó queixou-se, acusou Deus, queixou-se ainda mais, teve dificuldade em enxergar para além da sua situação imediata e queixou-se ainda mais. O Livro de Jó não se pronuncia sobre até que ponto Jó considerou que as suas queixas acabaram por ser úteis, pelo menos até Deus o repreender no final.

Aproveitando os aspetos positivos dos conselhos dos seus amigos, precisamos de perceber que não sabemos o que se passa nos reinos espirituais e no Conselho de Deus. Não sabemos o que teria acontecido se um desastre não tivesse ocorrido. Precisamos de deixar de dizer a Deus o que fazer e pedir a Sua ajuda e sabedoria sobre o que Ele deseja que façamos nesta situação. Temos de compreender que a vida cristã consiste em glorificar Deus, e não no nosso conforto.


P: Em Jó 19:13-27, tal como Jó, como podemos manter a esperança numa situação desesperada?

R: Olhem para cima, não olhem para as circunstâncias. Lembrem-se de 1 Pedro 1:3-9 e 1 Coríntios 2:9. Mesmo na sua condição, Jó foi capaz de olhar para cima. Mesmo assim, Jó lembrou-se da sua esperança: que, em última análise, Deus o salvará e o justificará. Jó está preocupado não apenas com uma, mas com duas coisas aqui. Ele deseja alívio e cura das suas aflições, mas também quer que o seu bom nome seja justificado.


P: Em Jó 19:17, como é que o hálito de Jó poderia ser repugnante para os seus próprios filhos, uma vez que estes tinham sido todos mortos em Jó 1:2, 18-19?

R: A expressão pode referir-se aos seus irmãos, que não foram mortos; a BSB traduz-a por «a minha própria família». O versículo 18 diz «meninos», não «os seus filhos». A obra *When Critics Ask*, pp. 228-229, acrescenta ainda que «filhos», neste contexto, significa descendentes, incluindo netos.


P: Em Jó 19:18, de que forma é que as crianças desprezavam Jó?

R: A doença de Jó causava-lhe um mau hálito muito forte, de acordo com Jó 19:17. Isso pode significar que até as crianças gozavam com Jó. Embora G.R. Driver afirme que, no babilónico antigo e nas glosas de Amarna, isto significa «fugir», esta expressão idiomática também aparece no Salmo 78:19 e significa «falar contra».


P: Em Jó 19:20, isto significa que Jó já não tem dentes?

R: A expressão «pela pele dos meus dentes» talvez se refira às gengivas de Jó. Isto poderia significar que os seus dentes tinham desaparecido, mas o hebraico não contém a palavra «apenas», que algumas traduções acrescentam. Seja como for, isto pareceu a Jó uma fuga por pouco.


P: Em Jó 19:25, o que é exatamente um «Redentor» neste contexto?

R: A palavra hebraica, go’el, é a mesma utilizada para «Parente-Redentor» no livro de Rute. Havia dois objetivos para um go’el.

Vingador de sangue: Se alguém da família fosse assassinado, mesmo que talvez de forma não intencional, a função do go’el era a justiça: localizar o assassino e levá-lo à justiça para que fosse executado. A única exceção ocorria se o criminoso cometesse homicídio culposo e fugisse para uma cidade de refúgio. Se permanecesse na cidade de refúgio até à morte do sumo sacerdote em exercício, o go’el não poderia levá-lo à justiça. Após a morte do sumo sacerdote, o go’el não podia perseguir ninguém por homicídio involuntário.

Defensor dos oprimidos: O segundo objetivo do go’el, aquele que aqui nos interessa, consistia em que, caso algum membro da família fosse vendido como escravo, o go’el pudesse pagar para que o escravo fosse libertado. Além disso, se a esposa de um membro da família ficasse viúva, o go’el casava-se com ela e os filhos continuavam a usar o nome do marido falecido.

Estes parecem ser objetivos muito diferentes, mas o fio condutor que os ligava era o facto de o go’el ser o defensor dos vivos e o defensor dos assassinados.


P: Em Jó 19:25, o que é que Jó está a dizer aqui?

R: Há três pontos: do geral ao específico. Em primeiro lugar, Jó sabe que Deus vive. Em segundo lugar, Deus vive para sempre como Redentor. Deus nunca renunciará ao Seu papel de Redentor. Em terceiro lugar, Jó continua confiante de que o Redentor eterno o redimirá. Jó pode não saber exatamente de que forma, na carne, verá Deus (lembre-se de que o resto das Escrituras ainda não tinha sido escrito), mas sabe que, de alguma forma, o Deus Todo-Poderoso certamente fará com que isso aconteça.

Podemos sentir a tentação de querer viver para sempre na terra quando as coisas correm bem e sem complicações. Jó, nesta altura, não sentia qualquer tentação nesse sentido. Embora fosse fácil para Jó e difícil para nós, precisamos de nos lembrar que este mundo não é o nosso lar; temos algo muito, muito melhor à nossa espera. Mas a melhor parte do céu não é ver os outros santos, nem as nossas recompensas e coroas, mas sim ver Deus face a face no céu.


P: Em Jó 19:26, quais são as outras interpretações deste versículo?

R: Uma interpretação é «ver Deus ao meu lado», em vez de «ver Deus com os meus próprios olhos», de acordo com o New International Bible Commentary, p. 533. No entanto, nenhum comentador antigo interpretou o hebraico ou a Septuaginta grega desta forma. Independentemente disso, Jó pensava que, de alguma forma, iria «ver Deus», quer no seu próprio corpo físico ressuscitado, quer de outra forma.


P: Jó 19:26 indica que os corpos ressuscitados continuarão a ser de carne?

R: Há duas respostas possíveis. Pode significar «para além da minha carne» ou «na minha carne». Não é claro qual das duas opções Jó pretendia, e é possível que ele tenha sido ambíguo caso não soubesse qual a forma correta. No entanto, tal como demonstram 1 Coríntios 15:35-55 e 1 Tessalonicenses 4:16-17, a carne que temos atualmente não verá Deus, mas ver-Lo-emos numa nova carne, ou seja, em novos corpos físicos.


P: Em Jó 20:1-14, de que forma Zofar alterou o seu argumento neste ponto?

R: Presumivelmente, cada um dos amigos de Jó ouviu os outros. Zofar percebe que, dos cinco discursos ouvidos até ao momento, nenhum levou Jó a confessar algum grande pecado oculto e a arrepender-se. Por isso, Zofar tenta uma abordagem diferente e, em teoria, trata-se de uma boa abordagem.

Zofar, em Jó 20:1-14, 20-21, não consegue esperar mais para enfatizar a questão do tempo, especificamente a brevidade do período do pecado. A justiça de Deus pode demorar a manifestar-se, mas as consequências inevitáveis não se fazem esperar por muito tempo.

Embora este seja um bom argumento a apresentar a um pecador empedernido, Zofar, tal como os restantes amigos de Jó, interpreta totalmente mal a situação de Jó.

O discurso de Zofar é poético e inteiramente correto no que diz. No entanto, Zofar não percebeu o ponto mais importante, porque se concentrou apenas nesta vida na Terra. Zofar não conseguiu ver que, embora a justiça de Deus para com os ímpios nem sempre seja imediata, a justiça de Deus para com os justos, por vezes, também se atrasa.


P: Em Jó 20:1-14, que boas reflexões Zofar apresentou sobre o pecado?

R: Zofar apresenta aqui uma perspetiva diferente e complementar sobre o pecado. Sempre que desejar fazer algo que lhe proporcione prazer agora, pare e reflita sobre como se sentirá em relação a isso no futuro, ou mesmo amanhã; que prazer terá nessa altura? Quando se olha para muitos pecados na perspetiva do futuro, cometê-los agora parece, na melhor das hipóteses, inútil. Não há prazer algum que possa sentir agora de que não se arrependa ou que não esqueça rapidamente no futuro.


P: Em Jó 20:1-14, quais foram os dois erros graves que Zofar cometeu aqui?

R: Embora Zofar tenha apresentado o argumento válido de que o julgamento das pessoas más é frequentemente adiado, ele não dá o passo seguinte e não percebe que a justiça muitas vezes só chega aos ímpios após a morte. Isto é demonstrado no Salmo 9:17; Isaías 5:14-15; 30:33; Ezequiel 32:22-25; Mateus 7:13; 2 Tessalonicenses 1:8-9, embora, evidentemente, esses livros ainda não tivessem sido escritos.

Em segundo lugar, será que uma pessoa pode alguma vez sofrer aflições sem que isso se deva aos seus pecados? Aparentemente, essa ideia nunca ocorreu a Zofar. Zofar não refletiu sobre o facto de que a recompensa para os justos também pode só chegar após a morte.


P: Em Jó 20:1-29, Zofar pecou?

R: Segundo os padrões posteriores, sim. Zofar e os outros oradores atreveram-se a racionalizar os caminhos misteriosos de Deus e a razão pela qual Deus agiu assim, quando Deus não lho tinha revelado a Zofar, e Zofar interpretou mal a situação. Jó tinha-os advertido para que não interpretassem mal Deus e se expusessem ao julgamento. Zofar ignora alegremente as palavras de Jó neste ponto. Jó tinha dito que as suas mentes estavam fechadas à compreensão, mas Zofar afirmou que o seu entendimento o obrigava a responder. Zofar está agitado e impaciente com Jó, como mostra Jó 20:23. Jó diz que os três oradores deveriam sentir-se envergonhados de si próprios em Jó 19:3, e Zofar está a responder de forma provocadora em vez de dizer coisas que pudessem ajudar genuinamente.

Jó criticou os seus três amigos em Jó 16:1-5, e Zofar parece magoado com isso. Zofar compreende corretamente que a justiça nem sempre é imediata para os ímpios. Por vezes, estes prosperam durante algum tempo antes de receberem o castigo.


P: Em Jó 20:19, Zofar acusou falsamente Jó de oprimir os pobres e de se apoderar de casas à força. Como lida com a situação quando as pessoas simplesmente inventam coisas do nada?

R: Trata-se de alegações muito graves — se forem verdadeiras. Mas, na realidade, são alegações graves, sejam verdadeiras ou não, na medida em que destroem a reputação de uma pessoa, e Zofar pecou se tivesse essa intenção ao dizer aquelas coisas sobre Jó. E, se não foi esse o caso, então por que razão as mencionou?

Então, como deve responder se as pessoas o acusarem, direta ou indiretamente, de algo? Se não disser nada, alguns ouvintes interpretarão que quem fala está correto, uma vez que não deu resposta. Mesmo que diga que não o fez e eles não acreditem em si, continue a afirmar a sua inocência, pois alguns podem pensar que o silêncio significa admissão de culpa. Além de negar que o fez, peça-lhes provas ou testemunhas. Lembre-lhes que fazer acusações para as quais sabe que não tem provas constitui calúnia e mentira.

Nas notícias, há alguns anos, foi afirmado como um facto que Donald Trump era anti-semita; na realidade, o seu genro é judeu e ele ajudou a estabelecer a paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos. Oops! Não se trata apenas de terem estado errados; trata-se de terem inventado tudo do nada. As pessoas e os artigos não devem dar carta branca aos autores de calúnias. Devemos garantir que os outros se lembrem de que essas pessoas não têm credibilidade daqui em diante, não por avançarem alegações infundadas, mas por avançarem alegações que sabiam serem infundadas.


P: Em Jó 21:1-30, qual é o resumo do argumento de Jó neste contexto?

R: Jó está a reiterar o que disse anteriormente. Pode resumir este discurso com o versículo 2: «Ouçam atentamente as minhas palavras». Jó chega mesmo a dizer que terá algum consolo agora, se conseguir finalmente que o ouçam. Por vezes, parece que a única coisa que se pode fazer é repetir as coisas e esperar que os ouvintes acabem por compreender.

Há muitos anos, fiz parte de uma agência missionária cristã que evangelizava mórmons, e cerca de metade das pessoas do grupo eram ex-mórmons. À noite, por vezes perguntava-lhes o que os tinha levado a abandonar o mormonismo, na esperança de descobrir um fio condutor comum. Não ouvi uma única questão comum, mas o que ouvi em comum foi que, qualquer que fosse o facto ou a «vergonha histórica» que os tivesse afastado do mormonismo, não lhes tinha causado qualquer efeito da primeira vez que o ouviram. Tiveram de ouvir isso nove ou dez vezes, antes de finalmente lhes ter calado a mente. Depois, muitas vezes decidiram fazer alguma pesquisa, apenas para provar que aqueles cristãos estavam errados. Mas, quando fizeram a pesquisa, descobriram coisas que não esperavam encontrar e, por fim, Deus conduziu-os para fora da falsificação espiritual que é o mormonismo.


P: Em Jó 21:7-15, como se sente quando pessoas que enganaram e são fraudulentas acabam por prosperar mais do que o senhor?

R: Será que eles «acabaram» mesmo por prosperar mais do que o senhor? Depende de o senhor ter uma visão limitada a esta vida ou de estar a olhar para a eternidade. Se, com miopia, estiver a olhar apenas para esta vida, parece uma pena que o senhor se saia pior financeiramente. O salmista Asafe diz que quase caiu neste pecado da inveja no Salmo 73:2-17. Provérbios 24:1 também menciona isto. Mas se olhar a longo prazo, com uma perspetiva eterna, perceberá que a) tudo acabará por se resolver, em última análise, e b) esta vida na Terra é, de qualquer forma, muito curta e fugaz, tal como ensina 1 Pedro 1:5-6. Por isso, deixe-os desfrutar dos seus ganhos ilícitos, pois será apenas um período de tempo muito, muito curto, comparado com a eternidade, quando se arrependerão de tudo.


P: Em Jó 21:14-15, como partilha o evangelho com alguém que diz: «A minha vida está bem agora, por isso, para que preciso de Deus»?

R: Embora Zofar estivesse a utilizar as palavras certas numa situação totalmente errada, esta é uma boa ocasião para aplicar a abordagem de Zofar. Pergunte-lhes: «Tem paz na sua vida?» Poucos não-crentes pensam que a têm. Além disso, pergunte-lhes: «O que fará no final, quando estiver perante Deus e tiver de prestar contas da sua vida?» Acha que Estaline, Idi Amin e outros assassinos em massa enfrentarão quaisquer consequências após a morte? Se sim, então por que razão não as enfrentará toda a gente que quer basear-se na sua própria bondade?


P: Em Jó 22:1-30, qual é o argumento de Elifaz aqui?

R: Elifaz lembra a Jó que Deus não precisa de nós. Tal como antes, Elifaz diz a Jó para se arrepender e que, então, Deus o libertará por meio da justiça de Jó, só que, neste caso, Elifaz vai ainda mais longe. A justiça e o pecado do homem não trazem benefício a Deus. Elifaz peca ao afirmar que Deus não se importa. Pode não ser por causa da sua maldade que Deus o faz sofrer.

Depois, Elifaz vai mais longe e enumera a Jó todas as coisas erradas que imagina que este tenha feito. Zofar tinha inicialmente afirmado que Jó era um pecador oculto em Jó 11:5 e seguintes, mas Elifaz retomou esta ideia. Aparentemente, Elifaz está a ficar exasperado com Jó nesta altura, e está a ultrapassar a ténue linha que separa as afirmações infundadas das mentiras descaradas. Se Jó não fez estas coisas diretamente, Elifaz está a atribuir todas as más consequências que outros sofreram à inação de Jó, por não ter feito mais coisas boas. Certamente que Elifaz conseguirá que Jó admita, de uma forma ou de outra, que é um grande pecador. Depois de tudo isto, Jó deveria ceder e confessar todas as coisas más que fez. Como Jó não o faz, Elifaz está a tentar ajudá-lo. Repare-se na insensibilidade de Elifaz; ele nem sequer se deu ao trabalho de tentar responder às questões que Jó tinha levantado anteriormente.

Teologicamente, Elifaz chega a esta conclusão porque não há lugar na sua teologia para Satanás ou para os demónios. Temos de nos lembrar de que Elifaz está a tentar fazer algo de bom aqui: conduzir um pecador de volta a Deus. No entanto, Elifaz está, na verdade, a agir contra esse objetivo, contando mentiras sobre Jó e também sobre Deus.

Talvez Elifaz esteja realmente irritado nesta altura, porque este é o último discurso que dirige a Jó. E talvez isso seja o melhor. Se uma pessoa que procura aconselhamento sabe que o conselheiro lhe está a mentir, é pouco provável que a ouça ou confie nele de qualquer forma.


P: Em Jó 22:1-30, o que diria a um cristão ou a outra pessoa que pense que a prosperidade ou o infortúnio de alguém são consequências do seu grau de retidão no momento presente?

R: As Escrituras, a experiência e a lógica mostram, todas elas, que essa pessoa está errada.

Escritura: Para além das provações de Jó, Jeremias foi perseguido, atirado para um poço vazio e abandonado à morte, e Jeremias não merecia isso. Veja os profetas que Jezabel matou no tempo de Elias.

Experiência: Alguns reis e papas perversos viveram muito tempo. Algumas das pessoas comuns que sofreram sob o seu domínio foram assassinadas. Está a tentar dizer que Pol Pot, Idi Amin e Estaline eram mais justos, porque viveram mais tempo do que as pessoas que assassinaram?

Lógica: Hugh Hefner, o fundador da Playboy, faleceu aos 91 anos. Portanto, se um pastor ou um missionário cristão falecer antes dos 91 anos, será que é mais perverso?


P: Em Jó 22:1-30, quando — se é que alguma vez — deve um conselheiro mentir à pessoa a quem está a aconselhar?

R: É claro que nenhum conselheiro mentiria se achasse que isso provavelmente causaria danos, abalaria a confiança e não traria qualquer benefício. Mas e quando o conselheiro considera que isso poderá trazer algum benefício?

Para responder a esta questão, um conselheiro cristão deve ter bem clara a sua razão principal para estar ali. Será a) aconselhar a pessoa da melhor forma que sabe, fazendo o que considera certo na sua própria mente, ou b) glorificar a Deus e ser um verdadeiro testemunho de Deus, sendo o aconselhamento da pessoa algo secundário? Se se esqueceu de que glorificar a Deus é o seu propósito supremo, então talvez deva deixar de aconselhar, ou de exercer qualquer outro ministério, até recuperar a sua integridade, lembrando-se da razão pela qual aqui estamos. Um problema com o recurso à mentira, para além de desobedecer e desagradar a Deus, é que as pessoas parecem sempre calcular mal. Justamente quando pensa que não haverá repercussões (consequências negativas) porque ninguém saberá que está a utilizar métodos pecaminosos para tentar cumprir a vontade de Deus, alguém descobre inesperadamente. Como diz Provérbios 16:25: «Há um caminho que parece certo ao homem, mas o seu fim é o caminho da morte.»

Por isso, devemos, em primeiro lugar, glorificar Deus com lábios sinceros, como diz Provérbios 16:13.


P: Em Jó 22:1-30, consegue pensar noutros exemplos semelhantes ao de Elifaz, em que as pessoas consideraram mais importante provar o seu ponto de vista do que ministrar a uma pessoa ou ser sinceras?

R: O orgulho em relação aos outros, disfarçado de preocupação com a sua reputação, pode muitas vezes revelar-se de forma inesperada. Por vezes, pode parecer ridículo aos olhos dos outros o quanto uma pessoa inventa coisas para evitar ter de admitir que a sua opinião estava errada. No entanto, a pessoa que age assim muitas vezes não percebe que isso é óbvio para os outros.

Todos se enganam em alguma coisa, tal como todos têm necessidade de crescer. Como uma pessoa costumava dizer frequentemente: «Reservo-me o direito de me tornar mais inteligente.»


P: Em Jó 22:30, deveria dizer «ilha dos inocentes»?

R: Estudos linguísticos em hebraico e fenício mostram que deveria ser «aquele que não é inocente» ou «aquele que é culpado». A tradução grega da Septuaginta é diferente, dizendo «os inocentes».


P: Em Jó 23, qual é o argumento de Jó aqui?

R: Jó deixou de criticar os seus três amigos neste ponto. Agora, Jó está a acusar Deus. Na verdade, Jó não está a acusar Deus de lhe causar danos injustamente. Jó está a acusar Deus de ser um juiz ausente.


P: Em Jó 24, qual é a nova constatação de Jó neste ponto?

R: Jó percebe que não é apenas ele; há outros que, não sendo mais ímpios do que os demais, também sofrem mais do que os outros. Jó percebe duas coisas: o problema que ele tem, e que os seus amigos têm, é que não compreendem o prazo em que Deus executa o julgamento na terra; e Deus não lhes está a revelar isso. Jó está consternado com a aparente inatividade de Deus neste momento. A segunda observação é que Jó e os seus amigos se esquecem com demasiada facilidade de que Deus julgará as coisas após a morte das pessoas.

Em Jó 24:18-25, Jó retirou dos seus amigos a verdade de que os ímpios acabarão por ser destruídos, tal como a espuma do mar ou a neve que derrete. Pelo menos, Jó e os seus três amigos concordam todos quanto a isto no que diz respeito aos ímpios em geral.


P: Em Jó 24:18-25, trata-se de uma parte do discurso de Jó ou do discurso seguinte de Bildade?

R: A disposição do livro de Jó nas Bíblias judaicas e cristãs atuais é a mesma que se encontra em Qumran, nos Manuscritos do Mar Morto. No entanto, há quem considere que alguns versículos de Jó ficaram desordenados, e que esta passagem possa fazer parte do discurso seguinte de Bildad. Contudo, seja como for, todos concordam com isto.


P: Em Jó 25:1-6, qual é o argumento de Bildad aqui?

R: Bildad profere aqui o discurso mais curto de todo o livro. Esta é a última vez que Bildad ou os outros dois amigos se pronunciam. Talvez seja porque percebem que já não têm mais nada a dizer. Em resumo, Deus é tão elevado e nós somos tão insignificantes, e o abismo é tão vasto, que quem poderá compreender os caminhos de Deus? Bildad está aqui a negar a imanência de Deus. Bildad reitera sucintamente:

1) Deus é Todo-Poderoso

2) Portanto, o homem não é puro perante Deus

3) Se nem mesmo a lua e as estrelas são puras perante Deus, então, evidentemente, o homem também não pode sê-lo.

Bildad está correto neste ponto, exceto que a parte sobre as estrelas não serem puras não é bíblica, e o homem não é totalmente perverso. No entanto, a forma como Bildad justapôs estas afirmações revela um equívoco. O facto de Deus ser Todo-Poderoso não prova, de forma alguma, que o sofrimento de Jó seja justificado. O facto de Deus ser santo e justo, por si só, não provaria a justiça de um dano caprichoso e injusto.

Bildad compreende que existe justiça e que pode haver misericórdia. Em todos os seus discursos, Bildad, ao contrário de Elifaz, nunca dá a entender que reconheça que a justiça para com os ímpios nem sempre é imediata. Os três amigos, em conjunto, nunca compreendem que também os justos podem sofrer injustamente durante algum tempo.


P: Em Jó 25:4-6, será que o homem é apenas um verme (larva de mosca)?

R: Bildad está a lembrar a Jó da morte. Tanto a larva como o verme têm uma vida curta e também se encontram nos túmulos. Foi isso que Bildad disse, não o que Deus disse. A metáfora está parcialmente correta, mas não é um quadro completo.

A duração da nossa vida é semelhante à da erva aos olhos de Deus (Tiago 1:10-11; Isaías 40:6-8; Salmo 90:3-6). Ainda sobre o tema da terra, as nossas vidas são como pó quando comparadas com Deus (Isaías 40:15). Deus está acima dos homens como se fossem gafanhotos (Isaías 40:22). No entanto, isso é apenas metade da história.

Apesar de tudo isto, fomos criados de forma admirável e maravilhosa (Salmo 139:14) e à imagem de Deus (Génesis 1:27). Ele deleita-se nos Seus filhos (Sofonias 3:17).

Podemos viver na terra apenas por um momento, mas Deus ama-nos e valoriza-nos (Salmo 8:4-8).


P: Em Jó 26:1-4, quando — se é que alguma vez — deve tentar discutir ou debater com alguém que se encontra em meio a um profundo luto?

R: Quando essa pessoa não estiver interessada em debater, nem mesmo em ouvir um argumento razoável, esse é o melhor momento para adiar o que quer que fosse que pretendesse dizer. Há um momento para demonstrar que se preocupa e que solidifica com ela. Talvez mais tarde, quando já não estiver tão emocional, seja o momento mais adequado para argumentar com ela.


P: Em Jó 26:1-4, os discursos dos três amigos de Jó continham muitas coisas válidas em termos abstratos, mas não conseguiram compreender a situação em que Jó se encontrava. O que precisamos de fazer, quando aconselhamos alguém, para garantir que compreendemos a situação em que essa pessoa se encontra?

R: O primeiro passo é ouvi-la. Pode ouvir outra pessoa em, pelo menos, quatro níveis.

Em primeiro lugar, recorra ao silêncio. Deixe de falar tanto se a pessoa tiver dificuldade em inserir uma palavra sem o interromper.

Em segundo lugar, faça perguntas, não apenas para mostrar que está a ouvir, mas para esclarecer aspetos que possam ser ambíguos e que não lhe sejam claros.

Em terceiro lugar, certifique-se de que ouviu e de que se lembra das palavras da pessoa. No final, pode perguntar-lhe se pode resumir o que ela disse, para se certificar de que ouviu corretamente.

Em quarto lugar, tente demonstrar empatia e compreender quais as atitudes, pressupostos, verdades, falsidades, necessidades, sentimentos — pecaminosos ou não — que a outra pessoa possa ter tido para dizer o que disse, da forma como o disse.


P: Em Jó 26:1-30:31, qual é o resumo da resposta de Jó neste contexto?

R: Este é o discurso mais longo de Jó. Alguns comentadores consideram que Jó proferiu Jó 26:1-6, Bildade (ou talvez Zofar) o interrompeu e proferiu Jó 26:7-14, e depois Jó proferiu o restante. No entanto, Jó costuma falar mais do que os seus amigos sobre a transcendência de Deus, pelo que é provável que estas palavras tenham sido proferidas por Jó. Jó está farto dos seus amigos e:

(26:1-4) Jó diz sarcasticamente: «Vocês têm sido uma grande ajuda!» Na verdade, Jó acusa-os de não serem de todo úteis, tentando dizer a alguém para ouvir a sabedoria que eles conhecem e, no entanto, afirmando que Jó não tem qualquer sabedoria.

(26:5-14) Sei que a soberania e o poder de Deus sobre a morte, o céu e as águas são apenas o início do poder de Deus.

(27) Embora Deus seja injusto para comigo, enquanto eu, Jó, viver, não falarei mal nem negarei que tenho sido justo. O rico pode prosperar, mas Deus afligirá a ele, à sua descendência e à sua família.

(28) Os homens vasculham todos os recantos profundos e escuros da terra em busca de minério metálico, mas onde podemos procurar a verdadeira sabedoria? Só Deus a possui, e só a podemos aprender temendo o Senhor e afastando-nos do mal.

(29) Eu era abençoado. Oh, como anseio pelos dias em que o conselho benevolente de Deus brilhava sobre mim e os meus filhos ainda estavam vivos. Eu era honrado e as pessoas respeitavam-me. Era bondoso para com os outros. Ajudava os necessitados e os oprimidos e revestia-me de justiça. Sentia-me seguro até ao dia da minha morte, pensava eu, e as pessoas escutavam os meus conselhos.

(30) Mas agora não tenho honra. Os jovens zombam de mim, provocam-me. Não tenho bênção. Até o meu próprio corpo atormenta-me, porque Deus me aflige. Ninguém é bondoso para comigo. Deus permanece em silêncio, apesar de eu ter ouvido o clamor dos pobres.

(31) Fiz uma aliança e 14 juramentos. Os meus olhos, pés, coração e mãos estão puros. Se andei na falsidade, me desviei do caminho, fui seduzido por uma mulher, neguei justiça aos servos, rejeitei os pobres, acumulei pão, não ajudei os nus, explorei os órfãos, confiei no ouro, regozijei-me com a riqueza, adorei os céus, regozijei-me com a vingança, não fui generoso ou escondi o meu pecado, então que venha a calamidade. Se Deus puder processar-me por estas coisas, está bem, mas se não…


P: Em Jó 26:7, deve traduzir-se «Zafon» ou «norte»?

R: Zaphon, ou «Sapon», era uma montanha elevada na Síria. Embora a palavra hebraica signifique «norte», o verbo associado noteh, «estende-se», é utilizado apenas em relação aos céus. Alguns pensam que isto se poderá referir às constelações que aparentemente giram em torno do polo norte.


P: Em Jó 26:7, o que significa que a terra está suspensa no vazio?

R: A palavra hebraica aqui utilizada para «espaço vazio» é a mesma utilizada em Génesis 1:2 para designar o que não tem forma.

Muitas culturas antigas tinham a ideia de que a Terra era sustentada pelas costas de um animal, por um titã gigante ou pelo corpo de uma deusa. Em contraste, de alguma forma, Deus tinha ensinado a Jó que a Terra paira no espaço, no vazio.


P: Em Jó 26:11, o que são os pilares do céu?

R: Existem três possibilidades para os pilares/fundamentos do céu.

O próprio céu poderia simplesmente estar a tremer quando Deus repreende. No entanto, as duas alternativas seguintes são mais prováveis.

As montanhas são chamadas de pilares dos céus, bem como de pilares da terra. O abalo dos pilares pode referir-se a vulcões e a terramotos.

O horizonte era chamado de «fundamento do céu» na língua acádia, aparentada com a dos babilónios.


P: Em Jó 27:4-6, qual é o argumento de Jó aqui?

R: Por mais difícil que fosse a situação de Jó — do ponto de vista médico, financeiro e emocional —, ele continua aqui firme como uma rocha, afirmando que não proferirá maldade nem abandonará a sua integridade. Jó não se agarra à sua integridade para preservar a sua reputação; ele afirma que a sua reputação já foi destruída aos olhos de muitos, em Jó 30:1, 9-10.


P: Em Jó 27:4-6, de que forma um cristão que valoriza a sua integridade mais do que a prosperidade agiria de forma diferente de um cristão que valoriza mais a sua prosperidade?

R: As pessoas nunca podem realmente confiar em alguém, cristão ou não, que valorize a prosperidade ou o dinheiro mais do que a sua integridade. Sempre que fazem uma promessa ou um acordo consigo, como sabe que não irão voltar atrás quando surgir uma oportunidade melhor, especialmente se não estiver a vigiá-los? Se algumas pessoas só agem corretamente quando as está a vigiar, e é necessário um grande esforço para as vigiar, pode chegar a um ponto em que gasta tanto tempo e esforço a vigiá-las que já não há qualquer benefício em que elas o façam. Mas mesmo um não-cristão deveria querer contratar um cristão, porque sabe que este manterá a sua palavra e dará o seu melhor, mesmo quando ninguém estiver a vigiá-lo, como mostram Efésios 6:6-7 e Colossenses 3:22.


P: Em Jó 27:21, o que há de tão mau no vento de leste?

R: Normalmente, o vento soprava do oeste e, quando soprava do oeste ou do sul, era suave. Mas, em ocasiões relativamente mais raras, quando o vento soprava do leste, era muito forte e seco — pense numa tempestade de areia. Pode fazer murchar as colheitas no campo. Se tentasse separar o trigo do joio e houvesse vento de leste, tanto o trigo como o joio seriam levados pelo vento. Embora as tempestades não sejam comuns com vento de leste, ocorrem redemoinhos quando o vento muda de oeste para leste. Uma expressão da gíria árabe refere-se a ele como um «vento venenoso». Não era tanto o receio de que o vento de leste matasse pessoas, mas sim de que prejudicasse as colheitas dos agricultores.


P: Em Jó 27:23, Jó 34:37, Naum 3:19, Ezequiel 25:6 e 2 Reis 11:12, será melhor dizer na igreja «amém» ou «louvado seja o Senhor» em vez de bater palmas?

R: Não, isso está incorreto. Henry M. Morris, do Instituto de Investigação da Criação, sugeriu isso na devoção «Days of Praise» de 12 de junho de 2004. Existem quatro palavras hebraicas diferentes para «bater palmas» e ele afirma que nenhuma delas tem uma conotação positiva. Por exemplo, Naum 3:19 diz que os outros baterão palmas quando ouvirem falar da destruição de Nínive. Em 2 Reis 11:12, os israelitas piedosos bateram palmas quando Joás foi coroado, mas Morris afirma que «isso era uma forma de expressar a sua intenção de ferir e destruir a perversa rainha Atalia».

Eis alguns versículos do Antigo Testamento sobre bater palmas:

caphaq (Strong 5606) [pronuncia-se saw-FAK] Jó 27:23; Jó 34:37; Lamentações 2:15

teqa (Strong 8628) [pronuncia-se taw-KAH] Salmo 47:1; Naum 3:19

mecha’ (Strong 4222) [pronuncia-se maw-KHAW] Salmo 98:8; Isaías 55:12; Ezequiel 25:6

nakah (Strong 5221) [pronuncia-se naw-KAH] 2 Reis 11:12

Morris está correto quanto aos cinco versículos não sublinhados, mas está incorreto no que diz respeito aos aplausos em geral.

Versículos principais para refutar o argumento:

Isaías 55:12 fala de bater palmas sem qualquer contexto de triunfo, exceto no que diz respeito ao homem ímpio que abandona os seus pensamentos.

O Salmo 47:1 diz: «Batem palmas, todos os povos; clamem a Deus com voz de triunfo.» O Salmo 47:3 menciona, de facto, a subjugação das nações, mas o versículo 47:1 não se limita a isso.

Versículos secundários de apoio:

O Salmo 98:8 menciona Deus vindo para julgar e Deus obtendo a vitória. Não se trata de «expressar forte desaprovação em relação aos homens ímpios», porque os aplausos são «para Deus» e não «contra os homens».

2 Reis 11:12 relata que o povo batia palmas e dizia: «Viva o rei!» Morris afirma que as palmas «expressavam a sua intenção de ferir e destruir a ímpia rainha Atalia», como se discute em 2 Reis 11:13-16. No entanto, as palmas eram em celebração da coroação do jovem rei Joás, e não uma expressão de hostilidade para com Atalia.

Em conclusão, bater palmas não serve apenas para manifestar desaprovação, pois Isaías 55:12, o Salmo 47:1 e, possivelmente, o Salmo 98:8 e 2 Reis 11:12 mostram que se bate palmas em sinal de aprovação. Mesmo para quem pensa que bater palmas serve apenas para demonstrar triunfo, devemos bater palmas na igreja pelo triunfo que Jesus obteve na cruz e pela Sua vitória nas nossas vidas.


P: Em Jó 28:1-28, qual é o ponto principal deste capítulo?

R: Este capítulo está dividido em três partes distintas por duas perguntas: «Onde se encontra a sabedoria?» em Jó 28:12, e «De onde vem, então, a sabedoria?» em Jó 28:20.

A descoberta do tesouro: as pessoas são muito hábeis na exploração da terra

A sabedoria como tesouro: No entanto, não reconhecem o valor óbvio da sabedoria.

A fonte da sabedoria: a sabedoria provém apenas do Senhor. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, conforme se lê no Salmo 111:10 e em Provérbios 1:7


P: Em Jó 28:1-28, o que sabemos sobre a exploração mineira naquela época?

R: Não dispomos de muita informação, mas sabemos que na Arava (sul de Israel e parte da Arábia Saudita), as pessoas já extraíam cobre muito antes de Abraão, embora os poços de mineração tenham surgido mais tarde, sob o domínio romano. Já antes da época de Ezequias, sabiam como abrir poços até à superfície para deixar entrar a luz do sol. No século I a.C., na Núbia, utilizavam lâmpadas de mineração.


P: Em Jó 28:1-28, como é que se obtém sabedoria e em que medida isso se assemelha à mineração?

R: Embora existam diferentes tipos de mineração, vamos colocar os nossos chapéus de mineiro, acender as nossas lanternas de mineração e analisar a metáfora da mineração em geral. Há a exploração, a prospeção, a construção da mina, a extração do minério, a purificação do minério e a manutenção da mina.

Exploração: A primeira regra da mineração de ouro, prata ou qualquer outro metal é «certifique-se de que vai à montanha certa». O melhor mineiro do mundo não conseguirá extrair ouro de uma montanha se, para começar, não houver ouro lá! No caso da exploração petrolífera, deve-se encontrar uma formação geológica que possa ser um bom local para reter petróleo. No caso dos metais, procure uma montanha onde alguém já tenha encontrado no solo nas proximidades ou num ribeiro algum do metal que procura. Da mesma forma, não vá procurar sabedoria no lugar errado. Procure-a na Palavra de Deus e nos escritos e conselhos de pessoas piedosas e sábias. Embora possa encontrar fragmentos de sabedoria noutros escritos e noutras religiões, não vale a pena tentar extraí-la sem também ficar com os subprodutos tóxicos.

Prospecção: Garimpar ouro no rio ou perfurar um poço de petróleo de teste pode trazer benefícios económicos, mas pode ser ainda mais valioso para lhe indicar onde procurar e onde deixar de procurar. Algumas coisas têm a aparência de sabedoria, mas serão apenas «factoides», ou serão joias que poderá aplicar à sua vida e que o aproximarão de Deus?

Construir a mina: Assim que achar que sabe onde está a «veia principal» ou a extensão do campo petrolífero, construa a mina de forma a chegar da superfície até ao minério da maneira mais eficiente e segura possível. Construa bem a mina, para que não desabe nem seja demasiado incómoda para entrar e trabalhar o dia inteiro. Tem de gastar dinheiro para comprar vigas resistentes e boas ferramentas, sabendo que o seu investimento em tempo e dinheiro será insignificante comparado com os retornos que espera obter. Da mesma forma, aprender sabedoria pode ser um trabalho que leva tempo, quando poderia estar a ver televisão ou a fazer outras coisas. Mas os sacrifícios de tempo que fizer para adquirir sabedoria valerão a pena pelo que receberá em troca. Por vezes, é preciso descer às profundezas de uma mina escura para obter as joias mais brilhantes.

Extrair o minério: Tenha um método consistente que irá utilizar para aprender e reter a sabedoria. Algumas pessoas utilizam um caderno para anotar o que aprenderam. Outras utilizam um computador ou escrevem nas margens das suas Bíblias. Além disso, partilhar com os outros o que aprendeu não só os ajuda, como também reforça esse conhecimento na sua própria mente. É claro que também pode adquirir ainda mais sabedoria quando os outros partilham consigo o que aprenderam.

Purificar o minério: Nem todos os detalhes que lê têm a mesma importância. Periodicamente, resuma a aplicação do que leu e, em seguida, passe à ação e ponha em prática o que aprendeu. Poderá esquecê-lo facilmente se não o fizer. Além disso, se sabe o que deve fazer e não o faz, isso é pecado, como diz Tiago 4:17.

Manutenção da mina: À medida que avança na escavação da mina, os túneis podem desabar, a menos que adicione mais reforços. De certa forma, a etapa de «construção da mina» tem de continuar mesmo depois de ter começado a encontrar o filão. Pode ter um bom esforço inicial, mas também precisa de perseverança para não perder o ímpeto. Dedicar 10 minutos por dia à Bíblia durante o resto da sua vida é melhor do que 3 horas por dia durante o primeiro mês e depois parar. Por fim, as nossas memórias não são perfeitas; esquecemo-nos das coisas. É necessário voltar ao que já aprendeu e relê-lo para que não se esqueça.

Jó observa em Jó 28:13 que as pessoas são tão engenhosas na extração de metais e joias, mas por que razão não são tão boas na busca pela sabedoria?

Por fim, uma forma simples e excelente de obter sabedoria é pedir a Deus, tal como Tiago nos diz para fazer em Tiago 1:5. De facto, não podemos obter sabedoria duradoura sem que Deus ma conceda. Muitas vezes, quando surgiam perguntas para as quais eu não conseguia responder, orava sobre aquela questão intrigante, perguntando a Deus e esperando pacientemente. Por vezes, a resposta demorava um mês, mas acabava sempre por receber uma resposta ao que tinha perguntado. No entanto, nessa altura, normalmente já tinha outra pergunta. Não encare as suas perguntas sobre a Bíblia, o cristianismo e a vida como «dificuldades», mas sim como assuntos que despertam o seu interesse e que Deus pode utilizar para o ensinar.


P: Em Jó 28:28, de que forma o temor do Senhor é o princípio da sabedoria?

R: Primeiro, vamos discutir o que é a sabedoria e, depois, responder à pergunta.

A sabedoria pode ser definida como conhecimento aplicado à vida. Pode ser um senso comum não tão comum, como no Livro dos Provérbios, a perspicácia humana para alcançar objetivos, a exploração dos enigmas da vida ou ainda a capacidade de lidar com as situações. A palavra «hokmah» é utilizada 45 vezes no Livro dos Provérbios. Pode ser traduzida como «sabedoria» ou também como «habilidade», tal como a habilidade do tecelão do tabernáculo em Êxodo 35:26, de um carpinteiro ou ferreiro em Êxodo 31:6, a habilidade dos marinheiros no Salmo 107:27, de um general em batalha em Isaías 10:13, a habilidade de um administrador em Deuteronómio 34:9 e 1 Reis 3:28; e o conselho de um sábio conselheiro em 2 Samuel 20:22. O Livro dos Provérbios pode ser considerado um livro de habilidades para viver com sabedoria. Desejamos que mais pessoas queiram aprender essas habilidades.

Deus é a fonte da sabedoria, e qualquer sabedoria humana que negue a sabedoria de Deus não é assim tão sábia. Procurar compreender como Deus vê as coisas e como devemos viver de acordo com isso para Lhe agradar é ter as nossas prioridades bem definidas. Qualquer outra atitude equivale a «dar prioridade ao secundário e negligenciar o essencial». Assim, por exemplo, quando Deus diz para não tomarmos um atalho ético, as pessoas podem tentar racionalizar como isso se aplica a outras pessoas, mas não a elas próprias, ou por que razão isso não se aplica nesta situação, porque desejamos algo ardentemente. Ou podemos simplesmente dizer a Deus: «Está bem. Em comparação com agradar-Te, aquela outra coisa de que, de qualquer forma, eu não precisava nem desejava assim tanto.» Essa simples atitude pode salvá-lo de muitos esquemas fraudulentos, desgostos e da perda de amizades e dinheiro.

É curioso que as nações não sejam consideradas sábias, apenas os indivíduos. O respeito por Deus e a obediência a Ele são o ponto de partida da verdadeira sabedoria. Provérbios 8:13 diz que temer o Senhor é odiar o mal, e que Deus odeia o orgulho, a arrogância, o mau comportamento e a linguagem perversa.


P: Em Jó 29:1-25, o que há de interessante na estrutura da poesia de Jó sobre os nostálgicos «bons velhos tempos» que ele esperava que voltassem?

R: Jó 29-30 constituem o resumo final de Jó. Jó 29 muda abruptamente de tom, passando para um «modo optativo», ou seja, para expressar um desejo ou anseio. Jó estava a recordar os tempos passados em que os seus filhos estavam ao seu lado, ele era próspero e muito respeitado, o futuro parecia promissor e ele não fazia ideia de como iria ser posto à prova. Estes versículos formam uma relação simétrica.

Bênção (29:2-6)

— Honra (29:7-11)

— — A bondade de Jó (29:12-17)

Bênção (29:18-20)

— Honra (29:21-25)


P: Em Jó 29:3-5, Jó obedeceu a Deus, esforçou-se por cumprir a vontade de Deus e afastou-se do que desagrada a Deus, mas Jó também se deleitava em Deus. Como seria um cristão hoje em dia se não se deleitasse em Deus?

R: O cristão poderia parecer piedoso, diligente, obediente e trabalhador, mas, ao agir com as suas próprias forças, poder-se-ia questionar se isso realmente duraria toda a vida. Por vezes, um cristão pode simplesmente ter demasiadas coisas para fazer (ou, pelo menos, pensar erroneamente que as tem) para ter tempo para passar com Deus.

Imagine ter um cônjuge que fosse fiel, que contribuísse arduamente para a família, que fosse bom a lembrar-se de todas as coisas que precisavam de ser feitas e que comunicasse as novidades e tarefas de que precisava de saber, mas que estivesse simplesmente demasiado ocupado para passar algum tempo consigo. Ou talvez não estivesse assim tão ocupado; simplesmente não quisesse realmente estar consigo. Mesmo que não fosse esse o caso, não era uma prioridade para ele passar algum «tempo a dois» consigo. Diria que isso seria um bom casamento?

Fazemos parte da noiva de Cristo. Mas é possível que alguns cristãos tratem Deus da mesma forma.


P: Em Jó 29:7-17, por que razão Jó era anteriormente tão respeitado e quanto tempo durou esse respeito?

R: Jó não era respeitado por ser rico e poderoso. Pelo contrário, este homem rico e poderoso gozava de grande respeito porque utilizava a sua riqueza e o seu poder para o bem. Jó ajudava os necessitados, as viúvas, os indigentes e os órfãos. O próprio Jó talvez se tenha surpreendido com a rapidez com que o respeito que alguns tinham por ele se esvaiu, assim que deixou de ter meios para ajudar os outros e parecia estar a ser castigado por Deus. No final do livro de Jó, quando recuperou a sua riqueza e teve mais filhos, pergunto-me até que ponto Jó se importava com o respeito recém-conquistado daqueles que antes se riam dele.


P: Em Jó 29:1-25, o que diria a um cristão que vive no passado, que anseia pelos «bons velhos tempos»?

R: Ignoremos o facto de que, por vezes, a memória é seletiva e de que existem desafios diferentes em diferentes fases da vida. O que lhes pode dizer é: «Não se fixem nisso; os vossos melhores dias ainda estão por vir!» 1 Pedro 1:3-4 diz: «Bendito seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo! Pela Sua grande misericórdia, Ele concedeu-nos um novo nascimento para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 e para uma herança que é imperecível, imaculada e imarcescível, reservada nos céus para vós», (BSB)


P: Em Jó 30:1, tal como estes escarnecedores que outrora demonstravam respeito por Jó, por que razão há quem «chute as pessoas quando estas estão em baixo»?

R: Algumas pessoas sentem-se melhor consigo mesmas quando conseguem menosprezar alguém, especialmente quando não vêem quaisquer consequências negativas em fazê-lo. Outras pensam que a sua posição social aumentará, entre as pessoas que consideram importantes para si, ao falarem mal de quem todos os outros também criticam. Hoje em dia, pode-se observar a «cultura do cancelamento», que pretende silenciar aqueles que discordam dela. Parte da razão pelo qual têm sucesso reside no ego frágil que alguns têm quando são menosprezados pelos outros.


P: Em Jó 30:1, considera que o próprio Jó demonstrou aqui um certo toque de arrogância?

R: Sim. Todas as pessoas foram criadas à imagem de Deus, mas Jó tinha julgado algumas pessoas como sendo inferiores aos seus cães de guarda. Por um lado, os cães seriam leais e podia-se contar com eles para fazer o que lhes cabia, o que talvez fosse mais do que se pudesse dizer de algumas pessoas. Mas, por outro lado, Jó não gostava de ser desprezado, embora tivesse desprezado certas outras pessoas.

P: Em Jó 30, qual é o argumento de Jó aqui?

R: Todos os bons momentos do passado, descritos em Jó 29, proporcionavam um contraste acentuado com o estado lamentável que ele agora descreve em Jó 30. Em Jó 30:1-8, Jó menospreza outras pessoas, considerando-as tolos sem valor, e depois, em Jó 30:9-31, queixa-se de que até mesmo essas pessoas se acham melhores do que ele. Isto fere o orgulho de Jó. Como cristãos, devemos preocupar-nos em agradar a Deus e, ao contrário de Jó, não julgar o valor dos outros nem dar tanta importância ao que os outros pensam.


P: Em Jó 31:1-40, como lida com a situação quando alguém insiste que precisa de se defender por algo que fez, quando não vê necessidade disso?

R: Jó percebe que precisa de se defender perante os seus três amigos, que supostamente vieram para o consolar, mas que, na realidade, acabaram por o acusar. Em geral, deve dizer algo, como negar a acusação falsa e, pelo menos, apresentar um breve resumo do motivo. Dependendo da situação, poderá perguntar-lhes que tipo de provas seriam necessárias para os convencer do que está a dizer. Mas, por vezes, poderá querer ponderar quanto tempo pretende dedicar a falar com alguém, se essa pessoa não o estiver a ouvir de qualquer forma. No entanto, antes de se afastar, poderá querer dizer que sente que eles «não querem ser confundidos com factos» e que teriam de demonstrar que estão dispostos a considerar as suas palavras antes de desperdiçar mais palavras com eles.


P: Em Jó 31:1-40, o que há de bastante curioso nas comparações que Jó faz aqui?

R: Jó está a dar-nos um vislumbre íntimo do seu coração, da forma como encara as coisas. A forma como ele associa diferentes pecados às características de Deus ou do Céu é bastante singular e muito interessante. Ele apresenta uma promessa e 14 juramentos que fez, bem como as razões pelas quais é justo. Faríamos bem em recordar estes pontos como algumas das razões pelas quais devemos manter a justiça nas nossas próprias vidas.

Fez um pacto com os seus olhos para não olhar com luxúria para uma mulher — os olhos de Deus estão a observar (Jó 31:1-3)

Falsidade e engano — não gostaria de fazer isto e ser julgado na balança de Deus — se alguma coisa alheia ficou nas minhas mãos, que eu não obtenha qualquer ganho do que as minhas mãos plantarem (Jó 31:5-7).

Cobiçou ou tomou as coisas alheias — Não quero que Deus permita que outros tomem as minhas coisas (Jó 31:8-9).

Deixar-me seduzir por uma mulher — Não quero que outros homens se deitem com a minha esposa ou me levem à ruína financeira (Jó 31:9-12)

Neguei justiça aos meus servos e trabalhadores — o que faria eu quando Deus me confrontasse? Deus criou-nos a todos. (Jó 31:13-15)

Se, por minha mão, me recusei a ajudar os pobres e as viúvas (Jó 31:16),

não tiver dado comida aos órfãos (Jó 31:17-18),

não tivesse vestido os pobres (Jó 31:19-20),

oprimisse os órfãos no tribunal

Que o meu braço se desloque: — Não quero que Deus me cause dano físico. — Não faria estas coisas por causa do temor da majestade de Deus (Jó 31:21-23).

Colocasse a minha confiança e segurança no ouro (Jó 31:24).

Regozijei-me com a minha grande riqueza (Jó 31:25).

Prestado homenagem ao sol ou à lua

Deus julgaria-me por estes pecados ou pela infidelidade para com o Deus do Alto (Jó 31:26-28).

Regozijar-me com a queda do meu inimigo, amaldiçoando-o (Jó 31:29-30).

Não fui generoso para com os que vivem na minha casa (Jó 31:31).

Não ofereci hospitalidade a um estrangeiro (Jó 31:32).

Escondi o meu pecado, como as pessoas costumam fazer, porque temia a opinião pública (Jó 31:33-34).

Fiquei em silêncio

[por falar nisso, quem me dera que «Alguém» me estivesse a ouvir neste preciso momento!] (Jó 31:35-37).

Oprimi os meus arrendatários — não gostaria que Deus fizesse brotar espinhos em vez de cereais (Jó 31:38-40).


P: Em Jó 31:1, não olhar para uma mulher com luxúria faz parte da moralidade do Novo Testamento ou da moralidade do Antigo Testamento?

R: Em todas as épocas, ter olhos puros agrada a Deus. Embora Deus não tenha ordenado isto especificamente na lei do Antigo Testamento, os servos obedientes de Deus, como Jó, não procuravam ver tudo o que podiam fazer sem serem repreendidos, mas sim procurar agradar a Deus em todos os seus caminhos. Jó não precisava da Lei do Antigo Testamento para saber isto, porque muito provavelmente viveu antes da Lei mosaica.

A título de nota à parte, algumas pessoas pensam que isto se refere à deusa da fertilidade do Médio Oriente. Embora Jó também não considerasse venerar quaisquer deuses ou deusas idólatras, é mais provável que isto se refira às mulheres em geral, e não apenas a uma imagem específica de uma deusa.


P: Em Jó 31:7, o que está Jó a dizer sobre a pureza das suas mãos?

R: O Kethiv oriental mostra que isto significa «aderir a». Assim, isto significa: «Se alguma coisa se tiver colado às minhas mãos». Por outras palavras: «Se Jó tiver dedos pegajosos e tiver roubado alguma coisa.»


P: Em Jó 31:13, o que é que isto diz sobre tratar as pessoas que estão sob a sua responsabilidade?

R: Eis um exemplo. Imagine que tem de decidir sobre um assunto entre duas pessoas. A primeira é muito importante, e deseja manter a sua boa vontade, para permanecer nas suas boas graças. A segunda pessoa parece-lhe insignificante; não importa minimamente o que ela pensa de si. Mas, nesta questão, a primeira pessoa está errada. Decide a favor da primeira pessoa, devido à importância da relação que mantém com ela, ou decide com justiça? Jó optou pela segunda opção.

O Comentário de Keil-Delitzsch sobre o Antigo Testamento, vol. 4, parte 2, p. 183, apresenta um exemplo em que os rabinos também reconheceram este facto. «No Midrash, em “Parabola, Legenden und Ged, aus Talmud und Midrash”, de Giuseppe Levi, p. 141 (tradução alemã de 1863): A esposa do R. [Rabino] José iniciou uma discussão com a sua criada. O marido aproximou-se e perguntou qual era o motivo e, ao ver que a sua esposa estava em falta, disse-lhe isso na presença da criada. A esposa disse, furiosa: «Dizes que estou em falta na presença da minha criada?» O rabino respondeu: «Faço o que Jó fez.»


P: O que diz Jó 31:13 sobre a escravatura?

R: A escravatura era comum em todo o mundo antigo. A Lei transmitida por Moisés permitia a existência de escravos israelitas, em casos como o incumprimento de dívidas, mas os escravos israelitas tinham de ser libertados a cada sete anos. A única exceção ocorria se o escravo amasse o seu senhor e desejasse permanecer escravo para o resto da vida.

Jó 31:13 teria sido um choque para os proprietários de escravos no mundo grego e romano. Os escravos e servos de Jó tinham permissão não só para ter queixas contra os seus senhores, mas também para as expressarem abertamente e esperarem que as suas queixas fossem tratadas com justiça.


P: Em Jó 31:25, qual é o significado da última frase?

R: Muitas vezes, quando as pessoas se tornam ricas, há uma tendência para pensar que tudo se deveu à sua inteligência, ao seu trabalho árduo ou a outras capacidades. As pessoas minimizam frequentemente o facto de que podem simplesmente ter estado no lugar certo, na altura certa. Quando as pessoas dão ênfase à minha riqueza, que as minhas mãos adquiriram, não estão a ser gratas a Deus pelo que Ele lhes permitiu ter.


P: Em Jó 31:27, o que significa «beijar a mão com a boca»?

R: É muito semelhante à prática moderna de lançar um beijo. Se alguém que se encontra à distância de si lhe suscita afeto, pode beijar a sua mão e, em seguida, estendê-la na direção dessa pessoa.


P: Em Jó 31:26-28, qual é o significado desta infidelidade?

R: Jó está a dizer que, se respeitasse, se curvasse, venerasse, adorasse (etc.) o sol ou a lua, seria culpado de pecado contra Deus. Jó chama-O de «Deus nas alturas» para realçar a futilidade de adorar seres e coisas que sabe não serem o Deus Altíssimo.

Ao conversar com hindus ou budistas Mahayana, que adoram muitos ídolos, pergunte-lhes por que razão não adoram o Deus Altíssimo em vez dos seus «pequenos deuses». Ao conversar com mórmons, que acreditam que o «deus deste mundo» tinha um deus e pai maior do que ele, que por sua vez tinha um deus e pai maior do que ele, pergunte aos mórmons por que razão não adoram o Altíssimo.


P: Será que Jó 31:33 sugere que Adão ocultou a sua transgressão [de uma relação conjugal prematura com Eva] ao cobrir a parte sexual do seu corpo, tal como ensina o herege Rev. Moon no «Princípio Divino», 5.ª edição (1977), p. 72?

R: De modo algum. Adão e Eva fizeram quatro coisas depois de terem pecado:

1. Costuraram folhas de figueira para se vestirem (Génesis 3:7)

2. Esconderam-se de Deus (Génesis 3:8)

3. Adão ficou com medo (Génesis 3:10)

4. Adão culpou Eva e Eva culpou a serpente (Génesis 3:12-13)

Jó 31:33 refere-se a Adão a ocultar o seu pecado. Isto pode referir-se a Adão a esconder-se ou a culpar Eva, bem como, ou para além de, terem feito roupas. Mesmo que se referisse a Adão e Eva a vestirem-se, tal não prova, de forma alguma, a existência de um pecado sexual.


P: Em Jó 31:36-37, o que é que Jó usaria como uma coroa?

R: Jó está a dizer que, se todas as acusações contra ele fossem escritas, ele estaria tão confiante na sua retidão que usaria o livro como uma coroa! Jó está a dizer que gostaria de poder aproximar-se de Deus, tal como um príncipe se aproxima de um rei, para explicar tudo isto e esclarecer a situação.

Existem atributos piedosos no seu caráter em que permitiu que o orgulho se infiltrasse e os contaminasse? Há coisas pelas quais se sentiria orgulhoso ao estar perante Deus? Se assim for, reflita novamente antes do momento em que realmente se aproximar do Santo. Deus não nos ama por causa de nada que tenhamos feito independentemente Dele. Deus criou-nos para Si mesmo, e devemos sentir-nos alegres, e não orgulhosos, pelo que Ele está a realizar através de nós.


P: Por que razão diz Jó 31:40: «Assim terminam as palavras de Jó»?

R: Provavelmente para que não esperemos mais discursos de Jó. Na verdade, Jó volta a falar (talvez «murmurar» seja uma palavra mais adequada) mais adiante, em Jó 40:3-5 e Jó 42:1-6.

Não devemos sentir-nos ofendidos com o que não é explicado. É natural querer compreender, mas não devemos exigir compreender.


P: Em Jó 32:1-37:24, por que razão Eliú estava certo e os outros quatro homens estavam errados?

R: Jó afirmou que o seu sofrimento se devia ao facto de Deus ser injusto. Os amigos de Jó afirmavam que o seu sofrimento se devia ao pecado de Jó. Estavam num impasse. Eliú disse que ambos estavam errados e ficou indignado com as palavras destes homens, que de resto eram sábios. Deus não revelou a razão do sofrimento de Jó, e era presunçoso afirmar qual era. No entanto, podemos ver que Deus pratica a justiça, mas muitas vezes temos de esperar pela Sua justiça, pois nem sempre ela se manifesta nesta vida terrena.

Os argumentos de Eliú estavam corretos. Eliú apresentou-se aos quatro, bem como a quaisquer ouvintes, e estabeleceu o seu direito de falar em Jó 32. Mas, nas suas longas explicações sobre o valor das suas palavras, algumas pessoas pensam que ele pode ter ultrapassado os limites, tornando-se arrogante. É claro que Jó 32:2-3 diz que Eliú estava indignado com as palavras destes crentes quando se pronunciou.


P: Em Jó 32:1-37:24, qual é o argumento de Eliú aqui?

R: (32) Eliú considera que todos os quatro estão errados.

(33) Jó, o senhor afirmou que era íntegro e que Deus é injusto para consigo. O senhor não é justo, na medida em que está a contestar Deus, que não nos deve quaisquer explicações. Deus fala connosco e intercede por nós, e Deus pode salvar-nos da destruição.

(34) Vocês três, sábios, estão errados por não corrigirem Jó. Vocês três e Jó têm, essencialmente, o mesmo problema; pensam que conseguem descobrir a razão do sofrimento de Jó e que Deus é obrigado a revelá-la. Pensam que se deve a algum pecado secreto, ou então que Deus é injusto. A única resposta correta para a razão pela qual Jó está a sofrer é esta: «DEUS AINDA NÃO NOS DISSE.»

(35) Jó, está errado ao afirmar que a minha justiça é superior à de Deus. Elifaz está errado (em Jó 22:2) ao dizer que não adianta nada sermos justos ou ímpios. Deus tem prazer na piedade. Deus não é injusto. Se não estiver disposto a aguardar a Sua justiça, está apenas a multiplicar palavras sem conhecimento…

(36-37) Podemos, no entanto, afirmar o seguinte sobre a justiça de Deus. Deus não despreza ninguém. Ele opõe-se aos ímpios e faz justiça aos oprimidos. Não podemos conhecer toda a grandeza de Deus, mas eu me apressarei a ouvir a voz de Deus. Jó, as obras de Deus são tão maravilhosas e Ele é perfeito em conhecimento. Se deseja contender com Deus, então ensine-nos o que nós, meros mortais, podemos dizer-Lhe?


P: Em Jó 32:2, onde estava «Buz»?

R: Buz era filho de Naor e Milca e, portanto, sobrinho de Abraão, conforme Génesis 22:20-21. Havia também um Uz, filho de Aram, em Génesis 10:23. Seja como for, viviam na atual Síria. Jeremias 25:23 também menciona Buz.


P: Em Jó 32:6-7, quando devemos dar prioridade aos outros e abster-nos de falar?

R: Por vezes, poderá optar por se abster por respeito e cortesia. Outras vezes, poderá optar por adiar a sua intervenção até ao momento em que os outros o escutem melhor. Isto demonstra que Jó e os seus três amigos não eram os únicos presentes. Talvez pudesse ter havido uma multidão de pessoas, para além de Eliú.


P: Em Jó 33:6; 36:2, Eliú afirmou que estava a agir como porta-voz de Deus. Estaria correto?

R: Sim, uma vez que Deus não repreendeu Eliú, ao contrário do que fez com Jó e os seus três amigos. Fazemo-lo constantemente quando partilhamos o evangelho ou discipulamos alguém. No entanto, é muito importante estar correto no que se diz. Além disso, Eliú afirmou que se tratava da sua opinião em Jó 32:10, 17, e não pediu a Jó e aos seus três amigos que aceitassem as suas palavras sem questionar, mas sim que as pusessem à prova, tal como se provasse comida, em Jó 34:3-4. Os três amigos de Jó também atuaram como porta-vozes de Deus, mas não disseram as coisas certas.


P: Em Jó 33:9-36:23, o que havia de positivo no discurso de Eliú neste contexto?

R: Houve várias coisas.

Repetindo o que Jó disse: Em primeiro lugar, Eliú demonstrou que respeitava Jó ao ouvi-lo verdadeiramente. Eliú repetiu as palavras de Jó em 16 passagens: Jó 33:9a, 33:9b, 33:9c, 33:10a, 33:10b, 33:11a, 33:11b, 34:5a, 34:5b, 34:6a, 34:6b, 34:6d, 34:9, 35:2, 35:3 e 36:23. Os três amigos nunca repetiram o que Jó disse, enquanto Eliú demonstrou que o ouvia.

Respondendo a pontos específicos: Eliú respondeu a aspetos específicos que Jó referiu.

Em resposta à atitude geral e subjacente: Eliú analisou as queixas subjacentes, tal como se manifestavam no tom de voz de Jó.


P: Em Jó 33:9-33, qual é o resumo do que Jó deveria ter dito?

R: Embora seja difícil resumir tudo o que Jó realmente disse, eis um resumo do que Jó deveria ter dito, segundo Eliú.

1) Reconheço que não sou perfeito nem mais justo do que Deus (Jó 33:9; 34:5; 35:2).

2) Por isso, por favor, ensine-me onde errei, para que eu possa arrepender-me (Jó 34:32).

3) Não contestarei Deus, mas atribuirei justiça a Ele (Jó 33:13; 34:17; 36:3).

4) Sei que Deus fala (Jó 33:14-22; 35:10-11; 37:22), escuta (Jó 34:28) e livra e castiga (Jó 36:8-16).

5) Louvarei e engrandecerei a majestade de Deus (Jó 36:24-26; 37:5, 14).

6) Pois sei que as pessoas não compreendem os caminhos de Deus (Jó 36:22-23, 29; 37:14-18).


P: Em Jó 33:9-33, o que devemos fazer quando nos deparamos com uma tragédia?

R: Quando nos deparamos com uma tragédia, devemos agir tal como Eliú disse que Jó deveria ter feito:

1) Perceber que todos já cometeram erros e poderiam ter tomado decisões diferentes.

2) Perguntar se há algum pecado que tenhamos ignorado ou do qual não tenhamos conhecimento, pelo qual devamos pedir perdão, arrepender-nos e não voltar a cometê-lo.

3) Não culpe nem aponte o dedo a Deus.

4) Mesmo num momento de tristeza, aproximem-se de Deus em oração.

5) Louvar a Deus por meio desta situação.

6) Perceba que não vemos o panorama geral, como Deus o vê.


P: Em Jó 34:5-37, o que disse Eliú contra os três amigos de Jó?

R: Sim, Jó estava errado ao afirmar que era justo e que Deus lhe tinha retirado a justiça (Jó 34:5-7).

Mas está errado se pensar que Deus seria injusto ao fazer com que também os justos passassem por tempos difíceis (Jó 34:16-19).

Os amigos de Jó pensavam que a aflição só vinha para que Deus castigasse. Eliú sugere que a aflição também pode vir para ensinar. Como diz Simone Weil em «Gravidade e Graça»: «A extrema grandeza do cristianismo reside no facto de não procurar um remédio sobrenatural para o sofrimento, mas sim um uso sobrenatural para ele.»


P: Em Jó 34:8, quando deve afastar-se de alguém que constitui uma má influência para si?

R: Em geral, é bom conviver com não-cristãos e ter amigos não-cristãos. Eles podem testemunhar a sua fé e talvez venham para o Senhor. No entanto, algumas pessoas já manifestaram que não têm qualquer intenção de se aproximar de Deus. Se não está a torná-los «mais receptivos» a Deus e eles o estão a influenciar a tornar-se mais distante, então precisa de encontrar outros amigos.


P: Em Jó 35:1-16, qual é o ponto principal de Eliú aqui?

R: Em Jó 35:1, Eliú não está necessariamente a repreender qualquer frase específica proferida por Jó, mas sim toda a sua atitude de afirmar ser mais justo do que Deus e de que ser justo não vale a pena. Como cristãos, precisamos de manter os olhos postos no alto!


P: Em Jó 35:3, como responde quando alguém questiona por que razão deve ser justo, uma vez que Deus parece não estar a fazer nada neste momento?

R: Existem benefícios imediatos em fortalecer o seu caráter e as suas relações com os outros. Por vezes, há consequências imediatas, como ir para a prisão. Mas, na maioria das vezes, não se percebem estas coisas a curto prazo. Existem consequências graves a longo prazo para os perdidos, e coroas e outras recompensas para os santos que realizam obras justas para Deus.


P: Em Jó 35:5, 10 e seguintes; 36:24-37:24, qual é o grande contraste aqui entre Eliú e Jó, e também com os três amigos de Jó?

R: Eliú é um homem de louvor, ao passo que eles não o são — ou, pelo menos, Jó não parecia sê-lo neste momento específico. Eliú não nega que as coisas sejam difíceis; mas exorta Jó a olhar à sua volta para as maravilhas de Deus e a louvá-Lo de qualquer forma.


P: Em Jó 35:6-8, o nosso pecado «magoa» Deus de alguma forma?

R: A resposta tem duas partes.

Não, Jó 35:6-7 mostra que o Deus Todo-Poderoso, que enche os céus e a terra, não é nem prejudicado nem beneficiado pelas ações dos seres humanos, nem dos anjos, nem dos demónios, aliás.

Mas podemos glorificar Deus (ou não). No entanto, os nossos atos justos, realizados com o coração correto, glorificam Deus. No caso de Jó, Jó 1:8-12 mostra que a justiça de Jó era de tal importância para Deus e Lhe dava prazer, que Deus falou a Satanás sobre isso. A integridade constante de Jó tanto glorificou Deus como mostrou a Satanás quão pouca influência este tinha sobre a justiça de Jó.

Alguma vez parou para pensar como é maravilhosamente estranho que a nós, seres humanos tão insignificantes, tenha sido concedida a capacidade de escolher glorificar Deus?


P: Em Jó 35:10; Salmos 77:6; 119:54-55; Isaías 30:29; de que forma é que Deus nos dá cânticos durante a noite?

R: Deus concede-nos canções de alegria mesmo quando passamos por momentos de dificuldade. E, claro, podemos cantar quando Deus nos livra das nossas dificuldades.

Alguém disse uma vez: «Nunca acontece nada de bom depois da meia-noite.» Bem, tecnicamente, isso não é verdade. Podem estar acordados e a louvar a Deus! Esperemos que, se estiverem na cama com o vosso cônjuge, estejam, pelo menos, a louvar a Deus em silêncio.


P: Em Jó 36:4 e seguintes, quem é o sujeito — Deus ou Eliú — quando Eliú diz: «Há alguém perfeito em conhecimento convosco»?

R: Apenas neste versículo, a interpretação é ambígua. Se Eliú se estiver a referir a Deus, está a dizer para se olhar para o conhecimento de Deus e para não se considerar sábio aos seus próprios olhos. Mas se Eliú se estiver a referir a si próprio, isso torná-lo-ia também arrogante. É um paradoxo que alguém que seja um pouco arrogante possa ser o mais sensível para detetar a arrogância nos outros. Assim, apenas neste versículo, pode ser de ambas as formas.

No entanto, Eliú indica-nos a quem se refere em Jó 37:16: é Deus quem é perfeito em conhecimento.


P: Em Jó 36:27-28, como é que Eliú poderia saber sobre a evaporação, uma vez que os gregos de uma época posterior foram os primeiros, tanto quanto sabemos, a escrever sobre o assunto?

R: Embora não seja claro o quanto Eliú sabia sobre a evaporação, parece que, neste contexto, ele possuía a noção básica. Os gregos, pelo menos na época de Hesíodo, no século VIII a.C., conheciam a névoa, a que chamavam «anathyamiasis» (Teogonia 1928, 1958, p. 547-553). Tales de Mileto, em 585 a.C., considerava que a água era o elemento central de tudo e ensinava sobre a evaporação. Posteriormente, Anaximandro de Mileto, Aécio, Xenófanes de Colofão (c. 530), Diógenes Laércio, Aristóteles (c. 350 a.C.) e outros escreveram sobre a evaporação.

No entanto, pensamos que o Livro de Jó foi escrito após a época de José e dos seus irmãos e antes da época de Moisés, o que corresponderia a uma data anterior a 1447 a.C., muito antes de qualquer escritor grego conhecido.

Mas, embora os gregos tenham sido os primeiros de que temos conhecimento a escrever sobre o assunto, não foram os primeiros a representá-lo. Um mural egípcio mostra um rapaz escravo a retirar água do Nilo e a abaná-la para a arrefecer para a sua senhora. Isto ocorreu em 2500 a.C., ou seja, cerca de 500 anos antes de Abraão. Outro truque que os astutos egípcios utilizavam consistia em molhar um cobertor com água e, em seguida, deitarem-se sobre ele quando iam para a cama. Portanto, tinham definitivamente a noção de que a água pode evaporar-se com o calor e também refrescar as coisas. Consulte https://quilohome.com/evaporative-cooling-ancient-world/ e https://sleepbetter.org/sleep-like-an-egyptian/ para mais informações.


P: Em Jó 36:13-32, que novidade é que Eliú está aqui a dizer?

R: Eliú não está a falar sobre se Jó merecia ou não tudo isto. Mas o que Eliú está a dizer é que, se Jó estivesse a seguir a Deus, se ainda se mantivesse submisso, Deus já o teria libertado desta situação.

Por vezes, quando somos colocados numa situação com a qual podemos aprender, Deus mantém-nos nessa situação durante o que parece ser um período extremamente longo. Talvez Deus nos mantenha nessa situação até que aprendamos o que devemos aprender. Por isso, peça a Deus que lhe ensine o que Ele deseja que compreenda.


P: Em Jó 36:15, de que forma é que Deus fala às pessoas na sua aflição?

R: As pessoas podem estar pouco receptivas quando tudo corre bem, mas mostram-se mais dispostas a ouvir e a considerar algo novo quando se encontram em dificuldades. Mas, para além disso, Deus pode ensinar-nos coisas através do sofrimento, mesmo do sofrimento injusto, que talvez não conseguíssemos aprender de outra forma. Deus também pode utilizar o sofrimento numa área para resolver um problema ou um pecado noutra área.


P: Em Jó 37:14-23, que mensagem diferente está Eliú a transmitir aqui?

R: Eliú está a dizer para deixarem de falar tanto. Ouçam e reflitam sobre as maravilhas de Deus.


P: Em Jó 37:18, de que forma existe uma cúpula sólida sobre a terra?

R: Trata-se de uma comparação, em que o céu é comparado a um espelho límpido. Naquela época, os espelhos eram feitos de metal altamente polido, uma vez que ainda não existiam espelhos de vidro.


P: Em Jó 38:1, por que razão Deus não respondeu a Jó mais cedo?

R: Embora as Escrituras não o digam, podem existir, pelo menos, quatro razões.

Em primeiro lugar, o facto de Eliú ter falado perante Deus indicaria que Deus não se sentia obrigado a responder diretamente às acusações de Jó.

Em segundo lugar, Jó não estava a orar a Deus, mas sim a fazer acusações contra Ele.

Em terceiro lugar, ninguém no livro parecia ter uma voz de louvor e de espera paciente por Deus até que Eliú se manifestasse.

Em quarto lugar, Deus estava a pôr Jó à prova (tal como em Daniel 3:16-18), ao mesmo tempo que demonstrava o Seu poder total e absoluto sobre Satanás (João 12:31; Tiago 4:7).

Ao contrário dos três amigos de Jó, devemos convidar Deus a conceder-nos iluminação nos nossos pensamentos e conversas. Temos necessidade de orar por sabedoria/iluminação, conforme Efésios 1:15-23.


P: Em Jó 38:1, por que razão é apropriado que Deus fale a partir de uma tempestade?

R: O Livro de Jó começou com uma tempestade, que Satanás utilizou para matar os filhos de Jó. Por isso, agora termina com o poder de uma tempestade, na qual Deus vem e fala diretamente. O caminho do SENHOR está no redemoinho e na tempestade, em Naum 1:3.


P: Em Jó 38:2, por que razão Deus pergunta, em primeiro lugar, quem obscurece o seu conselho sem conhecimento?

R: Quando Jó afirmou que Deus se tinha tornado seu inimigo, só conseguia confundir as outras pessoas. Jó tinha pedido a Deus que lhe fosse concedido o seu dia no tribunal. Agora que o obteve, Jó está aterrorizado. Só agora é que Jó começa a perceber que foi arrogante para com Deus, e sabe que não é uma boa posição em que se encontrar.

A Bíblia adverte-nos contra o orgulho em Salmos 75:4-5; Provérbios 13:10; 29:23; e 30:13. Não devemos considerar-nos sábios aos nossos próprios olhos, conforme Provérbios 3:7; 26:12; 28:11; Romanos 12:16.

Mas Jó acabaria por ficar contente por Deus ter falado com ele. Agora, Jó sabe que não está sozinho; Deus está ao seu lado. Isaías 41:10; Salmo 73:23; e João 14:18; 16:32-33 também afirmam que Deus está connosco.


P: Em Jó 38:3-39:30, por que razão Deus não esperou que Jó respondesse a cada pergunta e por que razão Deus não se limitou a dizer a Jó o que este tinha dito de errado?

R: Deus respondeu às acusações de Jó. Mas, em vez de dar explicações, Deus respondeu a Jó fazendo Ele próprio oitenta perguntas retóricas, que iam desde a identidade de Jó até às suas capacidades. Imagine por um momento que estivesse a fazer um exame final de uma disciplina da faculdade, que todo o exame consistisse apenas nessas 80 perguntas e que não soubesse a resposta a nenhuma delas! Como se sentiria? Provavelmente um pouco como Jó nesta situação. Jó estava a obscurecer o desígnio de Deus sem o saber, e Deus mostrou a Jó como a sua compreensão limitada estava a obscurecer o desígnio de Deus, antes de o iluminar.

O objetivo não era que Jó respondesse às perguntas, nem que Deus respondesse às perguntas de Jó, as quais se baseavam, todas elas, na ignorância. O objetivo era que Jó percebesse que não era capaz de responder a nenhuma das perguntas de Deus. Se Jó quisesse assumir uma postura cética, então Deus poderia assumir uma postura cética em relação ao que Jó sabia, demonstrando que Jó, embora justo, sabia pouco ou nada com base no seu próprio entendimento. Deus continuou a não explicar os Seus caminhos a Jó; em vez disso, Deus revelou os Seus caminhos sem uma explicação que não estava obrigado a fornecer. Tanto quanto sabemos, Deus nunca revelou a Jó a situação com Satanás no capítulo 1 do livro de Jó.


P: Em Jó 38:2, de que forma Jó obscureceu o conselho de Deus?

R: Isto NÃO significa que Jó tenha obscurecido ou impedido algo sobre o próprio conselho de Deus no Céu. Em vez disso, Jó estava a «turvar as águas» no que diz respeito à sabedoria que Deus tinha revelado a outros. Em geral, quando alguém que se acredita ser cristão diz coisas sobre Deus que Deus nunca ensinou porque não são verdadeiras, então essa pessoa também está a obscurecer o conselho de Deus sem o saber, turvando as águas para si própria e para os outros.

Jó tinha ensinado coisas falsas sobre Deus. Jó tinha afirmado que, embora ele fosse justo, Deus era injusto; embora ele fosse piedoso, Deus era seu inimigo. Jó tinha tirado conclusões precipitadas, falando com presunção quando não dispunha de todos os factos sobre o que se passava por trás do seu sofrimento.

De um modo mais geral, algumas pessoas obscurecem o conselho de Deus quando se esquecem de que fomos criados à imagem de Deus e tentam moldar Deus à sua própria imagem. No entanto, Jó obscureceu o conselho de Deus de uma segunda forma: Jó dizia coisas sobre Deus para justificar o seu próprio sofrimento e justificar-se a si próprio, chamando a Deus de injusto.

Deus não se referia apenas a Jó, mas também aos seus três amigos. E, de certa forma, Deus está a dirigir-se aqui às pessoas de hoje, porque isto acontece constantemente. Quando as pessoas dizem que são boas coisas que Deus diz serem más, ou que são más coisas que Deus diz serem boas, estão a obscurecer o conselho de Deus. Quando questionam a natureza ou a bondade de Deus e procuram, em vez disso, estabelecer o seu próprio padrão, estão deliberadamente a tentar obscurecer o conselho de Deus. Somos advertidos a ter muito cuidado com a língua em Tiago 3:7-10.

Por isso, não sejam demasiado severos com Jó e os seus amigos aqui, pois eles não são um caso único. A pessoa comum de hoje provavelmente sabe muito menos sobre o conselho de Deus do que os amigos de Jó sabiam. Este estado de ignorância acarreta as suas próprias consequências, conforme escreve Paulo em Romanos 1:18-23.


P: Em Jó 38:2-39:30, qual é o desenrolar ou o esboço destes capítulos?

R: Estes versículos estão organizados de forma a mostrar como Deus é o Senhor da natureza.

Jó 38:4-15 Deus é o Criador

- - - da terra (4-7),

- - - do mar (8-11), e

- - - do dia e da noite (12-15)

Jó 38:16-38 Deus governa sobre os seres inanimados.

- - - As profundezas do mar e as extensões do céu (16-18),

- - - a luz e as trevas (19-21)

- - - O tempo, a neve, o granizo, o vento, a chuva, o trovão e a geada (22-30)

- - - As estrelas nas suas constelações (31-33) e

- - - As chuvas torrenciais e as inundações (34-38).

Jó 38:39-39:30 Deus governa a vida

- - - O sustento dos animais, tais como o leão e o corvo (38:39-41),

- - - A reprodução, como a das cabras-montanhesas selvagens e dos veados (39:1-4),

- - - A liberdade selvagem, como o asno selvagem em comparação com o asno domesticado (5-8),

- - - Grande força, como o boi selvagem em comparação com o boi domesticado (9-12),

- - - Animais velozes, como a avestruz e o cavalo de guerra (13-25), e

- - - Predadores voadores velozes, como os falcões e as águias (ou abutres-fofos) (26-30)

Elifaz também aludiu à primeira parte, em Jó 15:7-9, quando pergunta a Jó se ele foi o primeiro homem a nascer, se é mais antigo do que as colinas ou se conhece o conselho de Deus.


P: Em Jó 38:2-41:34, qual era o objetivo de Deus aqui?

R: Eis um breve resumo do que está por trás das 80 perguntas que Deus faz a Jó.

(38-39) Jó, por que está a obscurecer o meu desígnio com palavras sem conhecimento? Onde estava quando criei a terra, o mar, o amanhecer, a morte, a luz, a neve, os relâmpagos, as estrelas, as nuvens e os animais? Tenciona contestar Deus e corrigi-Lo?

(40:1-5) Jó diz que não tem resposta para Deus.

(40:6-41:34) Então responda-me a isto. Se anular o julgamento de Deus para se justificar, gostaria de assumir o papel de juiz (e de fazer cumprir os seus julgamentos)? Consegue criar o behemote (hipopótamo) ou fazer surgir o leviatã (o crocodilo)? Consegue brincar com ele, como se fosse um pássaro, ou colocá-lo numa trela?


P: Em Jó 38:31-32, isto constitui um apoio à astrologia?

R: Não. A astrologia é um pecado que consiste na tentativa insensata de utilizar as estrelas, a milhões de milhas de distância, para prever as características gerais das pessoas e o seu «futuro».

Não leia horóscopos no jornal, na Internet ou em qualquer outro lugar.

Mas a astronomia, observar as estrelas para refletir sobre o seu Criador e utilizar as estrelas para marcar as estações do ano não é contrário à Bíblia, ao contrário da astrologia. De facto, no Egito era bastante importante utilizar as estrelas para determinar quando o Nilo iria transbordar e decidir quando semear. Determinar quando uma estação começa não é tentar prever a vida das pessoas. Pelo contrário, o facto de as estrelas indicarem as estações é uma forma pela qual Deus provê para nós através dos Seus atributos e do nosso devido reconhecimento e uso da Sua criação.


P: Em Jó 38:31, qual é o significado das Plêiades?

R: As Plêiades são um aglomerado denso de estrelas. É espantoso que possam existir tantas estrelas num espaço que, visto da Terra, parece tão pequeno. Por que razão não se expandem para se parecerem com outras estrelas? Como é que evitam colapsar juntas? Além disso, o nascer heliacal das Plêiades marcava, naquela época, o início da primavera.

No entanto, Filo, o judeu (15/20 a.C. – 50 d.C.), refere o pôr das sete estrelas das Plêiades como a altura da sementeira e o nascer das Plêiades como a época da colheita. Em «A Criação», 38:115, p. 17.

Como nota à parte, a marca do fabricante de automóveis japonês Subaru deriva o seu nome das Plêiades na língua japonesa.


P: Em Jó 38:32 e 2 Reis 23:5, o que é «Mazzaroth/Mazzaloth»?

R: Pensa-se que seja o mesmo que «Mazzaloth» (com «l» em vez de «r») em 2 Reis 23:5. Embora algumas pessoas pensem que isto possa referir-se aos planetas, é mais provável que se refira às constelações rotativas, que Deus faz surgir na sua estação. As estrelas são obra de Deus, como demonstram o Salmo 147:4, Neemias 9:6, Isaías 40:26 e 45:12.


P: Em Jó 39:14, a avestruz abandona os seus ovos ou põe os seus ovos?

R: Algumas traduções de Jó 39:14 dizem que a avestruz «põe os seus ovos». No entanto, um homónimo da palavra hebraica para «pôr» é «abandonar». Uma boa tradução que capta ambos os sentidos é «deixa os seus ovos», que é como a BSB o traduz.


P: Em Jó 39:13-15, o que há de peculiar na avestruz?

R: As avestruzes são aves de aspeto estranho. São aves de grande porte, com sete ou oito pés de altura, dotadas de asas grandes, que não as ajudam a voar. Várias avestruzes podem pôr os seus ovos no mesmo ninho. Se não houver espaço, então põem os seus ovos na areia fora do ninho. Muitas vezes, as avestruzes-mãe, que pesam até 300 libras, pisam nos seus próprios ovos. Por vezes, uma avestruz-mãe choca outros ovos, esquecendo-se de quais são os seus. A avestruz-mãe «trata os seus filhotes com dureza», afastando as avestruzes de um ano quando chega a época de acasalamento. No entanto, as avestruzes sobrevivem. Conseguem correr a 40 milhas por hora, o que é mais rápido do que um cavalo. Como é que Jó consideraria sequer a criação de um animal assim?

Uma avestruz é um paradoxo, porque revela o génio criativo de Deus, mas não possui, por si só, sabedoria.


P: Em Jó 39:1-30, Deus poderia ter dito algo como: «Jó, deixe-me explicar-lhe tudo. Satanás desafiou a sua integridade, e o seu sofrimento glorificou-Me ao desmascarar Satanás.» Mas Deus não o fez. Porquê?

R: Aparentemente, Deus estava menos preocupado em que Jó conhecesse as razões do seu sofrimento do que em corrigir duas atitudes erradas de Jó. Em primeiro lugar, o facto de Jó ter assumido que poderia descobrir a resposta para tudo com base na sua própria compreensão limitada ou imperfeita. Em segundo lugar, a ideia de que Jó merecia receber uma resposta. Em vez disso, ver e conhecer a majestade e a glória de Deus é suficiente, mesmo quando não temos uma resposta.

Jó era um homem piedoso, mas mesmo uma pessoa piedosa pode precisar de correção.

Se Deus alguma vez contou a Jó ou aos seus amigos, antes de morrerem, sobre a conversa de Deus com Satanás, o Livro de Jó nada diz a esse respeito. Muito provavelmente, morreram sem fazer ideia. Acha que Deus e Satanás, ou algum outro demónio, alguma vez tiveram uma conversa sobre si?


P: Em Jó 38:1-39:30, quais são algumas semelhanças com Génesis 3:8-13,21?

R: Em ambos os casos, foram dados maus conselhos por aqueles que conheciam os caminhos de Deus. Jó e os seus três amigos no Livro de Jó, e Satanás em Génesis 3, bem como os resultados da «aposta» de Satanás com Deus em Jó 1:6-12. Eis outras semelhanças:

a) Ambas as histórias começam, para as personagens humanas, numa espécie de jardim do paraíso proporcionado por Deus.

b) O mal, na forma de Satanás, é o antagonista em ambas as histórias.

c) Eva e, provavelmente, Adão não estão a tentar afastar Deus das suas vidas, mas sim a ocupar o lugar de Deus, de forma limitada, no conhecimento do bem e do mal. Jó e os seus três amigos pensavam que podiam ver a partir de um ponto de vista semelhante ao de Deus e compreender tudo, além de se arvorarem em juízes e atribuírem a culpa pela situação de Jó, de forma semelhante, em alguns aspetos, à transferência de culpa por parte de Adão e Eva.

d) Em ambos os casos, os principais protagonistas humanos consideram e valorizam a sua auto-presumida aquisição do conhecimento de Deus ou a falta dele (nos casos de Jó e de Eva), em vez de confiarem em Deus e na Sua sabedoria.

e) Em ambos os casos, isto é pecaminoso e baseia-se, em grande medida, no orgulho humano.

f) Em ambos, a morte desempenha um papel fundamental como consequência em Génesis 3 e como evento precedente e desejo no livro de Jó.

g) Em ambos os casos, Deus começa por fazer uma pergunta: «Quem é este que obscurece o Meu conselho com palavras sem conhecimento?», em Jó, e a Adão: «Onde estás?», em Génesis 3:9. É claro que, ao fazer estas perguntas, Deus já conhecia de antemão as respostas. O «interrogatório» de Deus a cada testemunha exigiu autoanálise e arrependimento por parte de Adão, Eva e Jó, cada um dos quais enfrentou as consequências por terem, respetivamente, obscurecido o conselho de Deus, devido ao seu sentimento de autossuficiência, de direito adquirido e à pecaminosidade daí resultante.

h) Deus ordenou a Jó que oferecesse um sacrifício por si próprio e pelos seus três amigos (não por Eliú), devido às suas palavras pecaminosas. Em Génesis 3:21, Deus fez túnicas de pele para Adão e Eva. De onde viriam as peles dos animais? Os animais tiveram de morrer. Oferecemos sacrifícios a Deus porque Ele nos criou primeiro à Sua imagem, o que, em parte, significa o Seu compromisso de se sacrificar por nós através do Seu Filho.

De forma semelhante, Deus poderá estar a fazer-nos a mesma pergunta todos os dias: onde está? Devemos examinar-nos diariamente (2 Coríntios 13:5) para saber em que ponto nos encontramos na nossa caminhada com o Senhor. Estaremos a ficar para trás, devido à apatia, à distração com outros interesses ou ao cativeiro do pecado? Estaremos a «correr à frente» (2 João 9), quer tentando adivinhar o que Deus não revelou, quer esforçando-nos por conhecer e realizar a obra de Deus sem a força do Senhor? Estamos fiéis às palavras e ao espírito de Provérbios 3:5-6? Mas, em vez de fazermos «a nossa obra para Ele», à nossa maneira particular, devemos estar a fazer «a Sua obra» da forma como Ele deseja que a façamos.


P: Em Jó 40:1-41:34, qual é a mensagem de Deus nestes versículos?

R: Deus está a perguntar a Jó como ele lidaria com o mal. O que Jó faria com a misericórdia e o julgamento não é a questão principal; mas sim o que Jó pode fazer? Alguma vez permitiu que o mal continuasse, sem o contestar, porque sabia que contestá-lo poderia significar perigo ou perda para si ou para a sua família? Mas, em vez de Jó tentar opor-se a Deus, por que não fazer com que Jó se oponha a outra coisa que é relativamente insignificante em comparação, como, por exemplo, o behemote ou o leviatã?


P: Em Jó 40:2, quem é «o censurador»?

R: Trata-se obviamente de Jó no contexto imediato, especialmente depois de Jó ter acusado Deus de contender com ele em Jó 10:2; 23:6. Mas, em segundo lugar, pode generalizar-se a qualquer pessoa que deseje questionar e contender com Deus.


P: Em Jó 40:3-5, por que razão Jó não falou mais, tal como tinha feito anteriormente no livro?

R: Jó afirmou conscientemente que não queria falar mais em Jó 40:5. Talvez Jó tenha percebido que, quanto mais falava, mais fundo cavava o buraco para si próprio. As suas palavras anteriores centravam-se em justificar-se a si próprio e em acusar Deus de injustiça. Percebeu agora que essas palavras não o levariam a lado nenhum. Jó percebe agora que, ao insistir em que tinha de dar sentido a tudo o que acontece, estava a tentar assumir uma tarefa que não lhe pertencia, mas sim a Deus.

Pode haver momentos em que somos insensatos, ou interpretamos totalmente mal o contexto, e talvez seja melhor para nós simplesmente pararmos de falar.


P: Em Jó 40:3-5, como saberia se «excedeu» os limites do seu protesto?

R: Em primeiro lugar, olhe à sua volta para os outros. Não seja como a pessoa que se queixa a Deus por não ter uma sobremesa doce, quando outra pessoa não tem comida.


P: Em Jó 40:4-5, pode uma pessoa ser piedosa e, ao mesmo tempo, ser arrogante?

R: Sim, mas não é algo louvável; pode ser verdadeiramente repulsivo tanto para os não crentes como para os crentes. Jó era um homem piedoso, que ensinava aos outros a verdade sobre Deus. Mas, ao rever o livro, percebe-se que Jó não era arrogante de uma única forma, mas de várias maneiras. Jó era arrogante ao pensar que tinha tudo o que precisava para conseguir compreender tudo o que lhe estava a acontecer. Quando as coisas não faziam sentido, com base na informação de que dispunha, Jó acusava então Deus. Aparentemente, nunca ocorreu a Jó — nem aos seus três amigos, aliás — que pudesse haver informação importante de que não tinham conhecimento. Como se pode ver no livro de Jó, quando uma pessoa arrogante fala com outra, podem saltar faíscas.

Mais uma observação: há uma diferença entre ser arrogante de corpo e alma e não ser uma pessoa arrogante em geral, mas ainda assim revelar arrogância em algumas áreas. Uma pessoa que é arrogante em geral pode tentar basear a sua autoestima exclusivamente no facto de ser melhor do que os outros. Porém, uma pessoa pode ser humilde, reconhecendo que é Deus quem é mais importante e considerando os outros mais importantes do que a si própria (Filipenses 2:3). Não há problema em falar do que já alcançou. Mas da próxima vez que sentir um desejo muito, muito forte de dizer a alguém como é (ou foi) excelente em algo, pare por um segundo e pergunte-se o que está a alimentar esse desejo tão intenso. Será que se trata de arrogância numa área específica? Se for esse o caso, então porque não parar de falar de si mesmo e perguntar-lhe sobre a vida dessa pessoa?

Não seja como o solteiro de uma piada que foi a um encontro com uma rapariga e passou a primeira metade da conversa a falar apenas de si próprio. Depois, disse: «Bem, já chega de eu falar de mim. Agora, porque não fala de mim?»

Quando vir uma pessoa piedosa que seja arrogante, não tente negar que ela é piedosa, como fizeram os amigos de Jó. Mas ainda assim precisa de abordar a sua arrogância, tal como Eliú e, mais tarde, o Senhor fizeram.


P: Em Jó 40:4-5, o que quis Jó dizer ao afirmar que tinha falado uma vez, ou mesmo duas vezes, e que não falaria mais?

R: Trata-se de figuras de estilo comuns nas línguas semíticas. Isto não significa que Jó estivesse a dizer que nunca mais voltaria a falar. Mas Jó compreendeu o que alguém afirmou no início do século XX: os seus braços são demasiado curtos para lutar com Deus.


P: Em Jó 40:8, de que forma é que algumas pessoas hoje em dia condenam Deus para se justificarem?

R: Isto pode acontecer de duas formas. Em primeiro lugar, a certa altura, a forma como uma pessoa descreve a sua situação pode tornar-se pecaminosa, pois está a insinuar que Deus é injusto. É legítimo defender a sua própria integridade, mas não desacreditar a justiça de Deus.

Em segundo lugar, e ainda pior, há quem condene Deus como perverso para desculpar o seu próprio comportamento perverso.


P: Em Jó 40:15, 21-22, o que é o behemote?

R: A palavra significa «besta», e a terminação indica uma besta poderosa. Jó mostra que se trata de um enorme animal terrestre herbívoro que vive entre os juncos. O hipopótamo é o segundo maior animal terrestre vivo atualmente, e os hipopótamos vivem no Egito, pelo que este poderia ser um hipopótamo. Alguns poderão pensar que o animal é um elefante, interpretando a «cauda» como uma tromba. No entanto, o animal é um hipopótamo porque se esconde entre os juncos num pântano, e os elefantes não permanecem submersos como os hipopótamos. Outra interpretação é que possa tratar-se de um dinossauro, e as pessoas daquela época, tal como hoje, já tinham visto ossos de dinossauros. Dinossauros de grande porte, como o braquiossauro, viviam nos pântanos porque precisavam de água para suportar o seu enorme peso, e os povos antigos podiam encontrar ossos de dinossauros.


P: Em Jó 41:1, o que é o Leviatã?

R: O Leviatã é um grande animal marinho, provavelmente um crocodilo. Em sentido figurado, o Leviatã era considerado um grande monstro marinho. Em Isaías 27:1, o Leviatã era um símbolo cananeu de nações ímpias, como o Egito. A Bíblia e as fontes pagãs diferiam na medida em que estas últimas acreditavam na existência real de criaturas mitológicas, enquanto os autores bíblicos utilizavam os termos num sentido puramente figurativo e metafórico. A literatura inglesa do século XVII e anterior utilizava frequentemente alusões mitológicas de forma muito semelhante.


P: Em Jó 41:18, o que poderão significar aqui os «clarões de luz»?

R: Quando um crocodilo, que consegue permanecer debaixo de água durante cerca de cinco minutos, emerge e expele a água pelo nariz, à luz do sol isso pode parecer flashes de luz. Os olhos do crocodilo brilham, tal como os dos gatos e de muitos répteis. O brilho dos olhos por trás do «fumo» que sai das suas narinas pode dar essa impressão. A título de curiosidade, no Egito, quando um novo Faraó era coroado, este arpoava um hipopótamo e, por vezes, um crocodilo (com a ajuda de outros). Isto simbolizava o alegado controlo do Faraó sobre o caos.


P: Em Jó 42:1-17, as aflições de Jó, tanto no que diz respeito à família como à saúde, foram uma tentação ou uma provação destinada a fortalecer o seu caráter?

R: Primeiro, analisemos as tentações antes de responder à pergunta. Existem muitos tipos diferentes de tentações; algumas são de curta duração, outras de longa duração, algumas são leves e outras são graves. Em cada provação existe uma tentação de desistir, tal como a esposa de Jó o encorajou a simplesmente «amaldiçoar Deus e morrer».

Uma provação pode servir para fortalecer o caráter, mas não necessariamente. A mesma provação pode fortalecer ou destruir o caráter de diferentes pessoas, dependendo da forma como estas reagem. Mas, em vez de dar ouvidos à sua esposa, Jó continuou a confiar em Deus, embora não de forma perfeita, e a provação de Jó serviu para fortalecer o seu caráter.

Com o que está a debater-se hoje? Pode ser algo que fortaleça ou que destrua o caráter, «tudo depende da sua dependência». Está a confiar em Deus durante esta provação, ou está a tentar seguir sozinho, afastado de Deus?


P: Em Jó 42:1-6, por que razão a resposta de Jó foi adequada?

R: Jó aprendeu a não se aproximar mais de Deus como um «príncipe majestoso», tal como fizera em Jó 31:37. Em Jó 42:1-6, Jó admitiu que tinha sido presunçoso ao acusar Deus e lamentou sinceramente o que tinha dito. Deus não está a dizer que todas as palavras de Jó no livro de Jó foram adequadas (na verdade, não foram), mas que a resposta final de Jó foi adequada.


P: Em Jó 42:5, como é que Jó pôde ver Deus e sobreviver, uma vez que Êxodo 33:20 afirma que ninguém pode ver Deus e sobreviver?

R: Jó não está a dizer que viu fisicamente Deus numa forma específica. Em vez disso, Jó experimentou Deus de uma forma mais íntima do que anteriormente. A experiência que Jó teve aqui foi totalmente diferente das reflexões filosóficas de Jó e dos seus três amigos anteriormente. O cristão Blaise Pascal falou da diferença entre «o Deus dos filósofos e a fé no Deus Vivo que se dá a conhecer».


P: Em Jó 42:6, o que é que Jó desprezou exatamente?

R: A palavra «a mim mesmo» não consta do hebraico. Jó poderia estar a dizer que despreza as suas palavras anteriores, ou então que se despreza a si próprio por ter proferido essas palavras. Também poderia significar «rejeito o que disse».


P: Em Jó 42:7-8, a ira de Deus acendeu-se contra os três amigos de Jó pelo que disseram ao tentarem defender Deus. De que formas é que hoje em dia as pessoas podem falar para tentar defender Deus, acabando por causar mais mal do que bem?

R: Com este versículo, o livro passa da poesia para a prosa. Os três amigos de Jó tinham acusado Jó de ser ímpio perante Deus. Pensavam que estavam a servir a Deus e a ajudar um homem injusto. No entanto, numa reviravolta, Deus diz a Jó para oferecer sacrifícios pelos pecados deles. Deus chama Jó de «Meu servo Jó» quatro vezes, para dar ênfase, em Jó 42:7-8.


P: Em Jó 42:8-10, quando devemos orar para que Deus perdoe os outros?

R: Curiosamente, embora os amigos de Jó o tenham incomodado incessantemente, não há qualquer registo de que os amigos de Jó alguma vez tenham orado por ele. Mas Deus, aqui, pediu a Jó que orasse pelos seus amigos. Cinco pontos a considerar na resposta.

1. Deus tem o direito de perdoar ou não perdoar, de mostrar misericórdia ou recusar-se a fazê-lo (Romanos 9:11-18).

2. A única restrição é o limite que Ele próprio estabeleceu à Sua justiça.

3. Deus escolhe perdoar todos aqueles que se aproximam Dele em arrependimento.

4. No entanto, uma pessoa precisa da graça de Deus para sequer se aproximar Dele. Deus escolhe intervir para levar alguns ao arrependimento, e, no caso de outros, não intervém.

5. Em Atos 7, Estêvão orou para que Deus perdoasse aqueles que o mataram, e devemos orar para que Deus intervenha com a Sua misericórdia também para com os outros.


P: Em Jó 42:10, de que forma as bênçãos de Jó foram duplicadas, uma vez que ele só tinha dez filhos para substituir os dez que perdeu?

R: Se não houvesse vida após a morte, isto seria um problema legítimo. Mas isto revela um ponto interessante. Se os primeiros dez filhos de Jó, mencionados em Jó 1:2, fossem crentes, Jó teria vinte filhos no Céu, e as suas bênçãos seriam duplicadas.


P: Em Jó 42:11, estavam eles a consolar Jó pela aflição que Satanás lhe tinha infligido, ou pela que Deus lhe tinha infligido? É correto afirmar que foi Deus quem infligiu a aflição?

R: Embora Satanás tenha sido a causa mais direta da aflição de Jó, Deus, de forma indireta, «provocou-a» ao permitir que ela acontecesse. O ponto importante não era a aflição, mas a resposta de Jó a ela. Não se trata de Jó ter simplesmente dito: «Quero as minhas coisas de volta». Pelo contrário, Jó queria falar com Deus e acabou por adquirir uma nova perspetiva sobre Deus. E então Deus devolveu-lhe as suas coisas, mas em dobro.

A título de nota à parte, aparentemente os familiares de Jó tinham-no abandonado, considerando-o um caso perdido. Não os vimos em parte alguma do livro até agora.


P: Em Jó 42:11, de que forma Deus trouxe o mal sobre Jó?

R: Deus trouxe o mal sobre Jó de duas formas.

Jó sofreu uma calamidade física, e a palavra «mal» em hebraico significa tanto calamidade física como mal moral.

Deus permitiu que um ser moralmente maligno, Satanás, oprimisse Jó. Satanás estava a praticar o mal, mas teve de pedir permissão a Deus, e Deus concedeu-lha. Deus não cometeu, Ele próprio, qualquer mal moral, mas permitiu que Satanás pusesse Jó à prova.


P: Em Jó 42:11-17, qual é o resumo do que aconteceu a Jó?

R: Os amigos de Jó pensavam que o sofrimento servia sempre para disciplinar, e Jó pensava que servia para destruir. Eliú disse que poderia servir para orientar. Mas Deus estava a usá-lo para fins totalmente diferentes: para se manifestar contra Satanás e para desenvolver a relação de Jó com Ele.

Observe a situação de Jó. Ele fica sem palavras depois de testemunhar a majestade de Deus e arrepende-se das palavras precipitadas que proferira anteriormente. Jó ainda sofre com a aflição física, ainda perdeu toda a sua riqueza, mas agora está satisfeito por Deus lhe falar. Assim que orou pedindo perdão para os seus três amigos e para si próprio, Deus começou realmente a agir, duplicando a sua riqueza, concedendo-lhe o mesmo número de filhos e dando-lhe muitos mais anos de vida, uma vez que viveu mais 140 anos depois disto, talvez duplicando também os seus anos de vida. Depois de Jó ter visto mais de Deus, ninguém podia negar que Jó tinha sido grandemente abençoado.

Em resumo, através das provações, Deus concedeu a Jó uma nova visão de Si mesmo. Também nós devemos desejar uma nova visão de Deus. Como diz Jó 13:15a: «Ainda que Ele me mate, continuarei a esperar n’Ele.» (BSB)


P: Em Jó 42:15, qual é o significado do facto de as suas filhas serem tão belas?

R: Deus não só abençoou Jó devido à sua fidelidade, como também abençoou a sua família por causa da mesma. Além disso, este versículo mostra que a beleza física é algo positivo.


P: No livro de Jó, quais são alguns dos manuscritos mais antigos que ainda existem hoje?

Manuscritos do Mar Morto: (c. 1 a.C.) 4 cópias distintas, de acordo com o livro «Dead Sea Scrolls Today», p. 30, e o «Wycliffe Bible Dictionary», pp. 436-438. Trata-se dos 2Q15, 4Q99, 4Q100 e 4Q101.

No total, os Manuscritos do Mar Morto preservam os seguintes 292 versículos, de um total de 1 071 versículos do livro de Jó (27,3 %)

Jó 3:5-6; 4:16-21; 5:1-4; 8:15-17; 9:27; 13:4, 19-20, 24-27; 14:4-6, 13-17; 17:14-16; 18:1-4; 19:11-19,20; 20:1-6; 21:2-10,20-27; 22:3-9,16-22; 23:1-8; 24:12-17,24-25; 25:1-6; 26:1-2, 10-14; 27:1-4, 11-20; 28:4-13, 20-28; 29:7-16, 24-25; 30:1-4, 13-20, x, 27-31; 31:1, 8-16, 26-32, 4-; 31:14-19; 31:20-21; 32:1-3, 10-17; 32:3-4; 33:6-16, 24-32; 33:10-11, 24-26, 28-30; 33:28-30; 34:6-17,24-34; 34:28-31; 35:5-15,16; 36:7-16,23-33; 37:1-5,10-19; 38:3-13,23-33; 39:1-11, 20-29; 40:4-14, 23-31; 41:15-26; 42:1-2, 4-6, 9-12. Consulte «O Significado dos Manuscritos do Mar Morto» para obter mais detalhes.

Foram encontradas traduções em aramaico, denominadas targums, do livro de Jó entre os Manuscritos do Mar Morto, na caverna 4. «Os Manuscritos do Mar Morto Hoje», pp. 32-33, e «Os Manuscritos do Mar Morto Traduzidos: Os Textos de Qumran em Inglês», 2.ª ed. O Targum de Jó contém pequenos fragmentos de Jó 17:14-42:11, embora apenas 37:10-42:11 estejam intactos, de acordo com «O Arameu Errante», p. 164. Além disso, outro targum de Jó preservou Jó 3:4 e Jó 4:16-5:4, de acordo com *The Wandering Aramean*, p. 165. O pergaminho 11QtgJob contém os versículos 16:3, 18:23, 30:4, bem como outros versículos.

Teodoto realizou uma tradução grega do Antigo Testamento, que inclui o livro de Jó.

Símaco e Áquila foram outros judeus que também realizaram traduções gregas do Antigo Testamento, tendo incluído o livro de Jó.

Os manuscritos cristãos da Bíblia Vaticanus (325-350 d.C.), Sinaiticus (340-350 d.C.) e Alexandrinus (c. 450 d.C.) preservaram, cada um deles, a totalidade do livro de Jó.


P: Que autores antigos se referiram a Jó?

Os autores pré-nicenos que referiram ou aludiram a versículos do Livro de Jó são:

Filo, o judeu de Alexandria (15/20 a.C.–50 d.C.), cita Jó 14:4 na obra «Sobre a Mudança dos Nomes», cap. 6 (47), p. 345.

Clemente de Roma (96-98 d.C.) cita Jó 1:1 como «Escrito por Jó» em «1 Clemente», cap. 17, p. 9.

Justino Mártir (c. 138-165 d.C.) menciona Jó e Zacarias em «Diálogo com Trifão, o Judeu», cap. 103, p. 251

Melito/Meleto de Sardes (170-177/180 d.C.): «Tal como em Jó, ao falar do diabo: “Ele é o princípio dos caminhos do Senhor.”» (Jó 40:19) Da «Oração sobre a Paixão de Nosso Senhor», fragmento 8, p. 761

Teófilo de Antioquia (168-181/188 d.C.) cita Jó 9:9 em «Teófilo a Autólico», livro 1, cap. 6, p. 91. Não faz referência a Jó em mais nenhum outro local.

Clemente de Alexandria (193-202 d.C.) cita Jó 1:21 como sendo de Jó. «Stromata», livro 4, cap. 25, p. 439

Tertuliano (197-220 d.C.) discute as provações de Jó, mencionando-o pelo nome. Em «Sobre a Paciência», cap. 14, p. 716

Tertuliano (207/208 d.C.) alude a Jó 1:12. «Cinco Livros Contra Marcião», livro 5, cap. 13, p. 456

Hipólito (222-235/6 d.C.) cita Jó 31:1 como sendo de Jó no seu «Comentário sobre os Provérbios», p. 173

Orígenes (225-254 d.C.): «Também no último (capítulo) de Jó, no qual o Senhor diz a Jó, no meio da tempestade e das nuvens, o que está registado no livro que leva o seu nome», Orígenes, Contra Celso, livro 6, cap. 43, p. 593.

Cipriano, bispo de Cartago (c. 246-258 d.C.), cita Jó como sendo de Jó em «Tratados de Cipriano», Tratado 12, terceiro livro, 1,14.

Cipriano de Cartago (c. 246-258 d.C.) analisa em pormenor Jó 2:10 e 1:8 nos «Tratados de Cipriano», Tratado 7, cap. 10, p. 471

Firmiliano de Cesareia a Cipriano (256 d.C.) «Pois a graça de Deus é poderosa para associar e unir no vínculo da caridade e da unidade até mesmo aquilo que parece estar separado por uma distância considerável na terra, tal como, desde os tempos antigos, o poder divino associou, no vínculo da unanimidade, Ezequiel e Daniel — embora mais tardios na sua época e separados deles por um longo período de tempo — a Jó e a Noé, que se contavam entre os primeiros; de modo que, embora estivessem separados por longos períodos, sentiram, no entanto, as mesmas verdades por inspiração divina.» Cartas de Cipriano, Carta 74.3, p. 390

Pôncio (após 258 d.C.) «Se Jó, glorioso pelo testemunho de Deus, foi chamado de verdadeiro adorador de Deus e alguém a quem não havia ninguém na terra que se pudesse comparar, ele ensinou que devemos fazer tudo o que Jó tinha feito anteriormente… Ele, desprezando a perda dos seus bens, obteve tal vantagem pela sua virtude assim posta à prova, que não teve qualquer percepção das perdas temporais, nem mesmo das que lhe eram queridas. Nem a pobreza nem a dor o abateram; a persuasão da sua esposa não o influenciou; o terrível sofrimento do seu próprio corpo não abalou a sua firmeza.» A Vida e a Paixão de Cipriano, cap. 3, p. 268

Gregório Taumaturgo (240-265 d.C.) alude a Jó 20:20 e 1:21 em «Uma Metáfora do Livro de Eclesiastes», cap. 5, p. 12-13

Dionísio de Alexandria (246-256 d.C.) cita parte de Jó 14:1 como Escritura. De «Livros sobre a Natureza», fragmento 3, p. 86.

Metódio de Olimpo e Patara (270-311/312 d.C.) cita Jó 38:14 (Septuaginta) e Jó 10:8 como sendo de Jó, em *O Banquete das Dez Virgens*, Discurso 2, cap. 2, p. 314

Após Nicéia

Afraate, o Sírio (337-345 d.C.), cita Jó 16:19 «como disse Jó». «Demonstrações Selecionadas», cap. 22.10, p. 405

Atanásio (367, 325-373 d.C.): «Existem, portanto, no Antigo Testamento, vinte e dois livros; pois, segundo ouvi dizer, é transmitido que este é o número das letras entre os hebreus; sendo a sua ordem e nomes respetivos os seguintes. O primeiro é o Génesis, depois o Êxodo, a seguir o Levítico, depois o Números e, por fim, o Deuteronómio. A seguir a estes, vem Josué, filho de Nun, depois Juízes e, em seguida, Rute. E ainda, após estes, os quatro livros dos Reis, sendo o primeiro e o segundo considerados como um único livro, e da mesma forma o terceiro e o quarto como um único livro. E ainda, o primeiro e o segundo livros das Crónicas são considerados como um único livro. Da mesma forma, Esdras: o primeiro e o segundo constituem, igualmente, um único livro. A seguir a estes, vem o livro dos Salmos, depois os Provérbios, a seguir Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Segue-se Jó, depois os Profetas, sendo os doze considerados como um único livro. Depois, Isaías, um livro; em seguida, Jeremias com Baruc, as Lamentações e a epístola, um livro; posteriormente, Ezequiel e Daniel, cada um constituindo um livro. Até aqui se estende o Antigo Testamento.» Atanásio, Carta Pascal 39, cap. 4, p. 552.

Paciano de Barcelona (342-379/392 d.C.) faz alusão a Jó 42:10. Carta 3, cap. 24.1, p. 66

Efraim (350-378 d.C.)

Basílio da Capadócia (357-378/379 d.C.)

Cirilo de Jerusalém (c. 349-386 d.C.)

Ambrósio de Milão (370-390 d.C.)

Gregório de Nazianzo (330-391 d.C.) menciona Jó no seu poema sobre as Escrituras. O poema de Gregório encontra-se (em grego) no volume 37 da Patrologia Graeca de Migne, colunas 471-474 (Carmina Dogmatica, Livro 1, secção 1, Carmen XII). Consulte http://www.bible-researcher.com/gregory.html para mais informações.

O herege donatista Ticónio (após 390 d.C.)

Gregório Nazianzeno (330-391 d.C.)

Paciano (342-379/82 d.C.)

Gregório de Nissa (c. 356-397 d.C.)

Dídimo, o Cego (398 d.C.), parafraseia Jó 1:7-12; 2:2-6 como «o livro de Jó» — Comentário sobre Zacarias 3, pp. 68-69

Livro Siríaco dos Passos (350-400 d.C.)

Rufino (374-406 d.C.)

Jerónimo (373-420 d.C.) discute os livros do Antigo Testamento. Aborda especificamente Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, o Pentateuco, Jó, Jesus, filho de Nave [Josué], Juízes, Rute, Samuel, Reis (2 livros), os doze profetas, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Ester, Esdras, Neemias, Carta 53, cap. 7-8, p. 99-101.

Sínodo de Cartago (218 bispos) (393-419 d.C.)

Epifânio de Salamina (360-403 d.C.) era obcecado pelo número 22. Ele apresenta os 22 (!) livros do Antigo Testamento na seguinte ordem: Pentateuco (5), Josué, Jó, Juízes, Rute, Salmos, Crónicas (2), Reis (4), Provérbios, Eclesiastes, Cântico [Cântico de Salomão], Doze Profetas, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Esdras (2), Ester. O Livro das Lamentações não se enquadrava no seu sistema artificial, pelo que o colocou no final. Estes são os 39 livros de que dispomos hoje.

João Crisóstomo (-407 d.C.) refere-se a Jó 2:9 na obra de Jó, vol. 9, «Sobre as Estátuas», Homilia 4.5, p. 366, e 4.10, p. 369

Orosio/Hósio de Braga (414-418 d.C.) refere-se a Jó 1:7 como sendo de Jó, em «Defesa contra os Pelagianos», cap. 20, p. 143

O herege pelagiano Teodoro de Mopsuéstia (392-423/429 d.C.)

Agostinho de Hipona (338-430 d.C.) refere-se a Jó 34:30 como «escrito no livro de Jó». A Natureza do Bem, Contra os Maniqueístas, cap. 32, vol. 4, p. 358

João Cassiano (419-430 d.C.)


P: No livro de Jó, em que medida difere o texto massorético dos targums aramaicos encontrados nos Manuscritos do Mar Morto?

São muito semelhantes. Eis um targum (parafrase) de Jó 42:9-12, da coluna 38 do 11Q10. A tradução é retirada da «Dead Sea Scrolls Study Edition», volume 2, p. 1201. «[o Shuhita e Zofar, o Naamatita] e fizeram [conforme lhes fora ordenado por] Deus; e D[e]us ouviu a voz de Jó e perdoou-lhes os pecados por causa dele. E Deus voltou-se /para Jó/ com misericórdia e concedeu-lhe o dobro de tudo o que possuíra. Então vieram ter com Jó todos os seus amigos, todos os seus irmãos e todos os seus conhecidos, e comeram pão com ele na sua casa, consolando-o por todo o mal que Deus lhe tinha infligido. E cada um deu-lhe uma ovelha e cada um um anel de ouro. Em branco. E Deus abençoou Jó no final…]»

Note-se que o texto massorético menciona uma moeda de prata em vez de uma ovelha.


P: No livro de Jó, quais são algumas das diferenças de tradução entre o hebraico e a Septuaginta grega?

De um modo geral, o grego parece próximo do hebraico. A principal exceção é que a cópia mais antiga do livro de Jó da Septuaginta é um sexto mais curta. Aqui estão algumas das diferenças de tradução do capítulo 1. A primeira frase é a tradução hebraica, a segunda é a versão da Septuaginta.

Jó 1:3 «maior do que todos os filhos do Oriente» vs. «nobre do Oriente»

Jó 1:6 «filhos de Deus» vs. «anjos»

Jó 1:6, 7, 12 «Satanás» vs. «o diabo» (quatro vezes)

Jó 1:10 «e os seus bens aumentaram na terra» vs. «multiplicou o seu gado na terra»

Jó 1:11 «não amaldiçoar» vs. «abençoar»

Jó 1:13 «comer e beber» vs. «beber»

Jó 1:15 «sabeus» vs. «saqueadores»

Jó 1:16 «O fogo de Deus caiu» vs. «Caiu fogo do céu» (em ambos os casos, isto refere-se a um relâmpago)

Jó 1:16 «jovens» vs. «pastores»

Jó 1:17 «caldeus» vs. «cavaleiros»

Jó 1:18 «beber vinho» vs. «beber»

Jó 1:19 «do outro lado do deserto» vs. «do deserto»

Jó 1:19 «jovens» vs. «os vossos filhos»

Jó 1:22 «atribuir culpa» vs. «imputar loucura»

Jó 2:11 «Elifaz, rei dos temitas, Baldad, soberano dos saucitas, Zofar, rei dos mineitas»

Jó 3:4 «dia» (hebraico e Alexandrino) vs. «noite» (Septuaginta)

Jó 3:6 «regozijar-se» vs. «unir-se» (Septuaginta, siríaco, Targums, Vulgata)

Jó 5:5 «Retirando-o até dos espinhos, e uma armadilha arrebata os seus bens.» (Masorético) vs. «Não serão tirados dos homens maus. O poderoso afastá-los-á» (Septuaginta) vs. «E o homem armado tomá-lo-á pela força. E os sedentos beberão as suas riquezas» (Áquila, Símaco, Siríaco, Vulgata)

Jó 7:20 «Sou um fardo para mim mesmo.» (Masorético, Targum, Vulgata) vs. «Sou eu um fardo para vós?» (Neste caso, a Septuaginta preserva muito provavelmente a leitura mais antiga, e o texto masorético foi alterado para remover o que se considerava blasfémia. Sabemos isto graças a uma nota do escriba, ou Tiqqune sopherim, que foi conservada.)

Jó 8:14a «Aquilo em que ele confia é frágil» (TM) vs. «Pois a sua casa ficará desabitada» (Septuaginta) vs. «Cuja confiança será cortada.» (Siríaco)

Jó 9:19 «a mim» vs. «a ele» (Septuaginta, siríaco, Vulgata)

Jó 10:8 «por todos os lados; contudo, Vós destruis-me» vs. «depois mudastes e feriste-me.» (Septuaginta, siríaco)

Jó 10:20 «Não são poucos os meus dias? Então, cessa, e» vs. «Não são poucos os dias da minha vida?» (Septuaginta, siríaco)

Jó 13:14 (pergunta) vs. (afirmação)

Jó 14:3 «Vós trareis-o.» vs. «Trareis-o?» (Septuaginta, Vulgata, Siríaco)

Jó 14:10 «onde está ele?» vs. «ele já não existe»

Jó 14:16 «contar» vs. «contado» (Septuaginta) vs. «não contar» (siríaco)

Jó 15:23a «alimento para os abutres» (‘ayyay) (MT) vs. «onde (‘ayyeh) está?» (Septuaginta) vs. «Ele foge por causa da ameaça do julgamento» (siríaco)

Jó 16:3 «Acabarão as palavras vãs? Ou o que o incita a responder?» vs. «O quê! Há alguma razão nas palavras vãs? Ou o que o impedirá de responder?»

Jó 17:10 «todos eles» (muitos textos massoréticos, Targumim) vs. «todos vós» (alguns textos massoréticos, Septuaginta, siríaco, Vulgata)

Jó 18:3 «Até quando ireis substituir as palavras pela perversão?» vs. «Por quanto tempo ireis continuar?»

Jó 19:20 «em mim» (a maioria dos textos massoréticos) vs. «nele» (muitos textos massoréticos, Septuaginta e Vulgata)

Jó 19:28 «em mim» (muitos textos massoréticos) vs. «nele» (alguns textos massoréticos, Septuaginta, Teodócio, Vulgata)

Jó 21:24 «baldes» vs. «entranhas» (Septuaginta, Vulgata) vs. «flancos» (siríaco) vs. «seios» (Targums) (Aparentemente, os estudiosos modernos não são os únicos que tiveram dificuldade com esta palavra!)

Jó 21:28 «a tenda, a morada» (Masorético) vs. «a cobertura dos tabernáculos» (Septuaginta) vs. «a morada» (Vulgata)

Jó 22:8 (ausente) vs. «E dizes» (Targum de Jó dos Manuscritos do Mar Morto)

Jó 22:8 «tão escuro» vs. «luz»

Jó 22:9 «foram esmagados» vs. «esmagastes» (Septuaginta, siríaco, targums, Vulgata)

Jó 22:17 «a eles» vs. «a nós» (Septuaginta, siríaco, Targum dos Manuscritos do Mar Morto)

Jó 22:30 «aquele que não é inocente» vs. «o inocente»

Jó 23:2 «rebelde» (Masorético) vs. «fora do meu alcance» (Septuaginta) vs. «amargo» (siríaco, Targums, Vulgata)

Jó 23:2 «a mão sobre mim» (textos masoréticos, Targums, Vulgata) vs. «a sua mão» (Septuaginta e siríaco)

Jó 23:9 «ele volta-se» vs. «eu volto-me» (Septuaginta, siríaco)

Jó 23:12 «guardado de» vs. «guardado em» (Septuaginta, Vulgata)

Jó 24:2 «eles [os ímpios]» vs. «os ímpios»

Jó 24:21 «Ele maltrata» vs. «ele não tratou… bem»

Jó 24:24 «como todos os outros» vs. «como a malva»

Jó 25:3 «a sua luz» vs. «a sua armadilha/emboscada» (Talvez os tradutores da Septuaginta tenham interpretado a palavra hebraica ‘orebo em vez da palavra ‘orehu.)

Jó 26:5 «espíritos que partiram» vs. «gigantes»

Jó 27:19 «já não existe» (Masorética, Targumim) vs. «Mas não acrescentará» (Septuaginta, Siríaco) vs. «Mas nada tirará» (Vulgata)

Jó 28:11 «contenha/prenda» vs. «investigue/sondem» (Septuaginta, Áquila e Vulgata)

Jó 28:13 «o seu preço» vs. «o caminho para ele»

Jó 29:6 «ira» vs. «a rocha» (alguns textos masoréticos)

Jó 30:11 «a corda do meu arco» (textos massoréticos, siríaco, Targum) vs. «a corda do Seu arco» (Septuaginta, Vulgata)

Jó 30:18 «a minha vestimenta está desfigurada» (texto massorético, tradução literal de Green) vs. «torna-se como vestimenta para mim» (texto massorético), vs. «agarrou a minha vestimenta / agarra a minha roupa» (Septuaginta)

Jó 31:32 «para a estrada» (textos masoréticos) vs. «para o viajante» (Septuaginta, siríaco, Targum, Vulgata)

Jó 32:1 «aos seus próprios olhos» vs. «aos olhos deles» (Septuaginta, Símaco e siríaco)

Jó 32:3 «condenou-o» vs. «condenou Jó e, assim, condenou Deus» (uma antiga tradição dos escribas hebreus)

Jó 32:9 «muitos» vs. «antigos» (Septuaginta, siríaco, Vulgata)

Jó 33:30 «para ser iluminado com a luz da vida/dos vivos» vs. «para que a minha vida O louve na luz» (Septuaginta traduzida por Lancelot) vs. «para que vejam a luz da vida» (Septuaginta)

Jó 34:6 «Sou considerado um mentiroso» vs. «Ele [Deus] mente»

Jó 39:13 «avestruz» vs. «dos que se regozijam (= pavão)» (A Septuaginta utiliza «avestruz» em todas as outras passagens do livro de Jó.)

Jó 39:19 «com uma crina» vs. «com terror»

Jó 39:21 «eles escavam» vs. «ele escava com as patas» (Septuaginta, siríaco, Vulgata)

Jó 41:6 «mercadores» vs. «fenícios»

Jó 41:7 «Consegue encher a sua pele com ferros farpados [arpões], ou a sua cabeça com lanças de pesca?» vs. «E nem mesmo todos os navios reunidos seriam capazes de suportar a mera pele da sua cauda; nem transportariam a sua cabeça em embarcações de pesca»

Jó 41:9 «um é derrubado / oprimido» vs. «os deuses oprimiram» (Símaco, siríaco)

Jó 41:9 «Qualquer esperança de o subjugar» vs. «a vossa esperança» (um texto massorético)

Jó 41:11 «que eu retribuirei» vs. «e estarei a salvo»

Jó 41:22 «desfalecimento ou desânimo» (os estudiosos não têm a certeza quanto à palavra hebraica) vs. «destruição»

Jó 42:11 «uma moeda de prata» (textos massoréticos e Símaco) vs. «um cordeiro» (Septuaginta) (A tradução da Septuaginta de Lancelot inclui uma nota de rodapé indicando que poderá tratar-se de uma moeda com a imagem de um cordeiro gravada.) (O rabino Akiba e Qimchi afirmam que isto se refere a dinheiro.)

Jó 42:16 «140 anos» (textos massoréticos) vs. «240 anos» (Septuaginta) vs. «248 anos» (Alexandrino)

Jó 42:17 «cheio de dias» (textos massoréticos e versão de Áquila (126 d.C.)) vs. «cheio de dias: e está escrito que ele ressuscitará com aqueles que o Senhor ressuscitará.» (Septuaginta e Teodoto)

Jó 42:17+ (ausente) vs. «Este homem é descrito no livro siríaco como vivendo na terra de Ausis, nas fronteiras da Idumeia e da Arábia: e o seu nome anterior era Jobab; e, tendo tomado por esposa uma árabe, gerou um filho cujo nome era Ennon. E ele próprio era filho do seu pai Zare, um dos filhos de Esaú, e da sua mãe Bosorrha, pelo que era o quinto descendente de Abraão. E estes foram os reis que reinaram em Edom, país sobre o qual ele também governou: primeiro, Balac, filho de Beor (Semphor no Alexandrino), e o nome da sua cidade era Dennaba; mas, depois de Balac, Jobab, chamado também Job; e, depois dele, Asom, que era governador da região de Taeman; e, depois dele, Adad, filho de Barad, que destruiu Madiam na planície de Moabe; e o nome da sua cidade era Gethaim. E os seus amigos que vieram ter com ele foram Elifaz, dos filhos de Esaú, rei dos temânitas, Baldad, soberano dos saucaianos, e Sofar, rei dos mineanos.»

Bibliografia para esta questão: a tradução hebraica é retirada da «Literal Translation», de Jay P. Green, e a versão da Septuaginta provém da tradução de Sir Lancelot C.L. Brenton de «The Septuagint: Greek and English». Foram igualmente utilizados o «Expositor’s Bible Commentary» e as notas de rodapé das Bíblias NASB 1995, NIV 1985, NKJV e NRSV.